Jovem em silhueta com microfone simboliza vítimas de golpe no K-pop em academias privadas na Coreia do Sul
Imagem representa o sonho de jovens estrangeiras no K-pop que terminou em denúncias de golpe e falsas promessas

O crescimento global do K-pop transformou a Coreia do Sul em um destino disputado por jovens de vários países que sonham em se tornar idols. No entanto, por trás do brilho dos palcos, surgem relatos de promessas não cumpridas, contratos frágeis e um possível golpe aplicado por academias privadas de treinamento.

A experiência de uma adolescente estrangeira, identificada como Miyu para preservar sua identidade, ilustra esse cenário. Ela afirma que pagou quase R$ 100 mil por um programa de seis meses em Seul. O curso prometia aulas profissionais e acesso a audições com grandes agências do K-pop. Apesar disso, segundo a jovem, essas oportunidades nunca se concretizaram.

Promessas que ficaram no papel

A Coreia do Sul se tornou um destino para jovens do mundo todo que desejam entrar no mundo do K-pop

Miyu decidiu viajar à Coreia do Sul inspirada por idols estrangeiras que alcançaram fama mundial. Inicialmente, a academia apresentou um plano de treinamento intensivo em canto e dança. Na prática, porém, as aulas ocorreram com pouca frequência e apresentaram um nível abaixo do esperado.

Além disso, outras duas jovens estrangeiras que frequentaram a mesma academia relataram experiências semelhantes. Em comum, todas afirmam que a empresa prometeu audições regulares, mas nenhuma delas participou desses processos.

A empresa responsável nega as acusações e afirma que cerca de 200 alunas estrangeiras já passaram pelos programas desde a inauguração.

Relatos de assédio e vigilância constante

A empresa afirma que as câmeras de segurança foram instaladas após incidentes de segurança ocorridos no passado, para ‘proteger a segurança das trainees’

Além das falhas no treinamento, as ex-trainees relatam episódios ainda mais graves. Duas delas acusam um membro sênior da equipe de assédio sexual, incluindo toques indevidos, convites para encontros a sós e abordagens consideradas intimidatórias.

Além disso, as jovens denunciam a instalação de câmeras de segurança em áreas sensíveis, como dormitórios femininos. Segundo os relatos, os equipamentos funcionavam de forma contínua, com captação de áudio, sem consentimento formal. Com isso, elas afirmam que passaram a se sentir observadas durante os treinos e constrangidas por comentários inadequados sobre seus corpos.

A empresa nega todas as acusações. Em resposta, afirma que instalou as câmeras apenas em áreas comuns, exclusivamente por motivos de segurança.

Falhas na fiscalização do setor

O caso expõe fragilidades estruturais da indústria do K-pop. Muitas academias se registram como agências de entretenimento, e não como instituições educacionais. Por esse motivo, elas escapam da fiscalização direta do sistema de ensino sul-coreano.

Como resultado, programas de treinamento não passam por inspeções regulares. Consequentemente, jovens estrangeiros enfrentam maior vulnerabilidade, sobretudo adolescentes que lidam com barreiras linguísticas, restrições de visto e pouco conhecimento do sistema jurídico local.

Medo, silêncio e dificuldades para denunciar

A história de Miyu lança luz sobre uma indústria não regulamentada, mas em crescimento

As jovens afirmam que demoraram a procurar ajuda. De um lado, temiam prejudicar qualquer chance futura na indústria musical. De outro, enfrentaram dificuldades para relatar os fatos às próprias famílias, que haviam feito grandes sacrifícios financeiros.

Em um dos casos, a polícia arquivou a denúncia por falta de provas. Mesmo assim, uma das ex-trainees ingressou com ações judiciais contra a empresa por quebra de contrato e danos morais relacionados ao suposto golpe.

Um sonho que ainda persiste

Apesar da experiência traumática, Miyu afirma que ainda deseja seguir carreira no K-pop. Segundo ela, a música continuou sendo uma forma de apoio emocional mesmo após os episódios vividos.

Especialistas alertam que o sucesso internacional do K-pop ampliou a responsabilidade das empresas do setor. Enquanto isso, histórias como a de Miyu mostram que, longe dos holofotes, o caminho até o estrelato pode esconder riscos graves para jovens que buscam realizar um sonho.

Fonte: BBC Brasil