A cientista Tatiana Coelho de Sampaio, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, coordena um dos estudos mais promissores do país na área de lesões medulares. Após mais de duas décadas de investigação, a equipe desenvolveu a polilaminina, uma molécula experimental voltada à regeneração da medula espinhal.
A pesquisa ganhou destaque nacional e internacional porque amplia as possibilidades de recuperação para pessoas com paraplegia e tetraplegia causadas por traumas.

O que é a polilaminina
A polilaminina é uma versão produzida em laboratório da laminina, proteína naturalmente presente no organismo humano e essencial para a organização dos tecidos e o desenvolvimento do sistema nervoso.
No entanto, ao ser polimerizada, a substância passou a apresentar um efeito ainda mais relevante: estimular neurônios que haviam interrompido seu desenvolvimento. Com isso, favorece a regeneração de axônios — estruturas responsáveis por transmitir impulsos elétricos pelo corpo.
Na prática, isso significa a possibilidade de restabelecer conexões nervosas e recuperar movimentos antes considerados irreversíveis.
Resultados clínicos iniciais animadores
Nos primeiros testes experimentais, oito voluntários com lesão medular receberam aplicação única da proteína diretamente no local do trauma, dentro de até 72 horas após o acidente.
Dois pacientes não resistiram à gravidade do quadro clínico. Entretanto, os outros seis apresentaram evolução significativa. Alguns registraram melhora parcial, enquanto outros recuperaram integralmente os movimentos.
Um dos casos mais emblemáticos é o de Bruno Drummond de Freitas, que sofreu um grave acidente de carro em 2018, aos 23 anos. Após receber a polilaminina 24 horas depois da lesão, iniciou um processo de recuperação progressiva. Em poucas semanas, já conseguia movimentar o dedão do pé. Em pouco mais de um ano, voltou a caminhar e hoje leva vida ativa.
Além dos testes em humanos, estudos com cães e roedores também demonstraram resultados positivos na regeneração de lesões.
Como a pesquisa começou
A trajetória da descoberta teve início em 1998, quando Tatiana Sampaio passou a investigar a associação de proteínas no laboratório. A partir da laminina, extraída inicialmente de placentas — material geralmente descartado após o parto —, a pesquisadora desenvolveu a forma polimerizada que deu origem à polilaminina.
Ao longo dos anos, o projeto contou com financiamento da Faperj, CAPES e CNPq. Posteriormente, firmou parceria com o laboratório Cristália para produção em escala industrial. Segundo a empresa, cerca de R$ 28 milhões já foram investidos no desenvolvimento da tecnologia.
Anvisa autoriza avanço para fase clínica
Em janeiro de 2026, o governo brasileiro anunciou o início do estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina no tratamento do Trauma Raquimedular Agudo (TRM).
Com o aval da Anvisa, voluntários entre 18 e 72 anos com lesões torácicas completas poderão participar da nova etapa, desde que tenham indicação cirúrgica realizada em até 72 horas após o trauma.
Esse avanço representa um marco para a pesquisa clínica no Brasil, especialmente porque integra o desenvolvimento científico ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Nova esperança para pacientes com lesão medular
A polilaminina reacende a esperança de milhares de pessoas que convivem com lesões medulares. Embora ainda esteja em fase experimental, os resultados iniciais superaram expectativas para esse tipo de trauma.
A ex-ginasta Lais Souza, que ficou tetraplégica após acidente em 2014, já se reuniu com a pesquisadora e acompanha os avanços com expectativa e cautela.
Tatiana Sampaio afirma que o objetivo agora é ampliar as possibilidades terapêuticas, inclusive para pacientes com lesões crônicas. Segundo ela, a missão é acelerar o processo científico com responsabilidade e rigor.
Impacto para a ciência brasileira
O estudo consolida o protagonismo da ciência brasileira em uma área historicamente dominada por centros internacionais. Além disso, demonstra que investimentos contínuos em pesquisa básica podem gerar inovações com impacto direto na qualidade de vida da população.
Se os estudos clínicos confirmarem a eficácia e segurança da polilaminina, o Brasil poderá liderar uma das mais importantes terapias regenerativas da atualidade.
Fonte: Último Segundo









