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domingo, abril 5, 2026

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Projeto de ciência cidadã inicia novo ciclo no rio Madeira

A ciência cidadã no rio Madeira iniciou um novo ciclo de atividades em 2026 com a retomada das viagens da equipe técnica do projeto “Ciência Cidadã como ferramenta de pesquisa em escolas ribeirinhas”. A proposta transforma estudantes voluntários de escolas públicas em pesquisadores da pesca artesanal, aproximando o conhecimento científico da rotina das comunidades que vivem às margens das águas amazônicas.

Neste ano, a iniciativa ampliou sua atuação em Rondônia e passou a incluir mais duas unidades de ensino na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã. A nova etapa reforça o objetivo de formar jovens cientistas da pesca, fortalecer o monitoramento pesqueiro e ampliar a produção de dados sobre espécies, hábitos de consumo e importância da pesca para a subsistência local.

Resumo rápido

Expansão em 2026

O projeto passou a atender novas escolas na Resex do Lago do Cuniã e retomou as viagens pelas comunidades ribeirinhas.

Pesquisa aplicada

Alunos monitoram a atividade de pescadores do convívio familiar e ajudam a gerar dados científicos sobre a pesca artesanal.

Conexão com o território

A proposta valoriza o saber tradicional e aproxima os jovens da realidade ambiental, social e econômica da Amazônia.

Projeto une pesquisa científica e saber das comunidades

O projeto integra o Programa Ciência Cidadã para a Amazônia, iniciativa da Aliança Águas Amazônicas que busca conectar organizações, democratizar a produção de conhecimento e empoderar cidadãos para o manejo sustentável da pesca. Em Rondônia, a execução é da Ecoporé em parceria com o Laboratório de Ictiologia e Pesca da Universidade Federal de Rondônia, com apoio da Wildlife Conservation Society e da Fundação Moore.

A metodologia coloca a ciência dentro da rotina comunitária. O foco está em engajar estudantes que convivem com pescadores em casa ou no entorno social. Pais, avós, tios, vizinhos e amigos passam a integrar esse processo, porque o jovem cientista acompanha a atividade de um pescador e registra informações por meio de entrevistas, observação e coleta de dados.

Na prática, o peixe que chega à mesa da família ou ao comércio local também se transforma em informação científica. Esse cruzamento entre vivência cotidiana e método de pesquisa ajuda a construir conhecimento mais próximo da realidade ribeirinha e, ao mesmo tempo, reforça a importância da pesca para a manutenção da vida nas comunidades amazônicas.

Logística desafiadora revela a dimensão do trabalho no Madeira

Para chegar às escolas e aos moradores, a equipe técnica enfrenta uma logística extensa a partir de Porto Velho. Os deslocamentos combinam estrada, travessia fluvial e pequenos trechos em embarcações, revelando uma Amazônia marcada por grandes distâncias e por acessos que mudam conforme o território e o período de chuvas.

A escola de Cujubim Grande fica a 33 quilômetros da área urbana de Porto Velho, enquanto Jaci-Paraná está a cerca de 80 quilômetros. Já para chegar a São Carlos, a 70 quilômetros da capital, é preciso cruzar o rio Madeira. No caso da Resex do Lago do Cuniã, o percurso inclui travessia do Madeira, trecho de estrada de terra e deslocamento final em pequenas embarcações.

Painel informativo
33 km
Distância da escola de Cujubim Grande em relação à zona urbana de Porto Velho.
70 km
Percurso até São Carlos, com necessidade de travessia fluvial no rio Madeira.
100 a 150 km
Faixa de distância até Nazaré, com viagem terrestre e trecho final em voadeira.

O distrito de Nazaré representa um dos deslocamentos mais longos da expedição. A viagem segue de carro até a boca do rio Jamari e continua por cerca de uma hora de barco. Os percursos mostram que a produção de conhecimento científico na Amazônia depende, antes de tudo, de presença contínua no território.

Engajamento escolar é prioridade no novo ciclo

Além da expansão geográfica, a equipe tenta enfrentar outro desafio: a evasão registrada no ano passado. Em 2026, a estratégia passa por maior envolvimento das escolas, com fortalecimento do vínculo com gestores e professores e inserção mais orgânica da iniciação científica na rotina escolar.

De acordo com a analista ambiental Dayana Catâneo, a permanência dos alunos depende também de uma mudança de perspectiva sobre o lugar onde vivem. O trabalho busca mostrar aos estudantes que o rio Madeira, segundo maior rio da bacia amazônica e dono da maior ictiofauna já descrita, faz parte da identidade da comunidade e representa um patrimônio ambiental de enorme relevância.

Voz do projeto
“Eles passam a valorizar o conhecimento tradicional de suas próprias comunidades. O projeto aproxima a ciência da realidade deles.”
Dayana Catâneo • analista ambiental do projeto

O engajamento dos estudantes também conta com bolsas do programa Jovem Cientista da Pesca Artesanal, do Ministério da Pesca e Aquicultura e do CNPq. A repercussão da iniciativa já alcançou dimensão nacional com a participação da jovem cientista Fernanda Oliveira no lançamento do novo edital em Brasília.

Moradora da comunidade de Terra Caída, Fernanda faz diariamente o trajeto fluvial até a escola em São Carlos. Para ela, a nova etapa pode ampliar o número de estudantes interessados e, consequentemente, elevar a coleta de dados. O relato mostra como a política pública e o trabalho de campo podem caminhar juntos para abrir novas perspectivas aos jovens da região.

Ciência no cotidiano fortalece identidade e orgulho ribeirinho

O biólogo Felipe Lins, integrante da equipe técnica, acompanha estudantes desde os primeiros anos do ensino médio e observa mudanças na forma como eles enxergam a própria realidade. Segundo ele, os jovens passam a se perceber como parte de um território rico em biodiversidade e tradição, enquanto desenvolvem olhar mais atento sobre os peixes, a pesca e o trabalho realizado por suas famílias.

Esse processo altera até o vocabulário dentro de casa. A partir das anotações e observações feitas pelos alunos, surgem perguntas sobre espécies consumidas, quantidade de peixes disponíveis e mudanças percebidas ao longo do tempo. A pesquisa científica, portanto, deixa de ser um conteúdo distante e passa a fazer parte da rotina alimentar, produtiva e cultural das comunidades.

Desdobramentos do projeto

Formação científica

Os estudantes participam da coleta e interpretação de dados sobre a pesca em suas comunidades.

Valorização cultural

O projeto reforça o reconhecimento do saber tradicional e da identidade ribeirinha.

Impacto local

A pesquisa contribui para ampliar a compreensão sobre a pesca artesanal e seu papel na subsistência.

A graduanda de Biologia da UNIR, Jamile Ferreira, resume esse caráter horizontal da produção de conhecimento ao destacar que também aprende com os resultados obtidos pelos alunos. A troca entre equipe técnica e comunidade ajuda a consolidar um modelo de pesquisa mais próximo da realidade local e mais sensível à vida na Amazônia.

Com novo ciclo, ampliação territorial e reforço do vínculo com as escolas, o projeto aposta no protagonismo juvenil para produzir ciência a partir de quem vive o rio todos os dias. Mais do que formar pesquisadores, a iniciativa amplia o olhar sobre a pesca artesanal e fortalece a conexão entre escola, território e comunidade.

Redação: Joshua Lacerda
Fotos: Joshua Lacerda/Acervo Ecoporé

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