A ciência cidadã no rio Madeira iniciou um novo ciclo de atividades em 2026 com a retomada das viagens da equipe técnica do projeto “Ciência Cidadã como ferramenta de pesquisa em escolas ribeirinhas”. A proposta transforma estudantes voluntários de escolas públicas em pesquisadores da pesca artesanal, aproximando o conhecimento científico da rotina das comunidades que vivem às margens das águas amazônicas.
Neste ano, a iniciativa ampliou sua atuação em Rondônia e passou a incluir mais duas unidades de ensino na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã. A nova etapa reforça o objetivo de formar jovens cientistas da pesca, fortalecer o monitoramento pesqueiro e ampliar a produção de dados sobre espécies, hábitos de consumo e importância da pesca para a subsistência local.
Expansão em 2026
O projeto passou a atender novas escolas na Resex do Lago do Cuniã e retomou as viagens pelas comunidades ribeirinhas.
Pesquisa aplicada
Alunos monitoram a atividade de pescadores do convívio familiar e ajudam a gerar dados científicos sobre a pesca artesanal.
Conexão com o território
A proposta valoriza o saber tradicional e aproxima os jovens da realidade ambiental, social e econômica da Amazônia.
Projeto une pesquisa científica e saber das comunidades
O projeto integra o Programa Ciência Cidadã para a Amazônia, iniciativa da Aliança Águas Amazônicas que busca conectar organizações, democratizar a produção de conhecimento e empoderar cidadãos para o manejo sustentável da pesca. Em Rondônia, a execução é da Ecoporé em parceria com o Laboratório de Ictiologia e Pesca da Universidade Federal de Rondônia, com apoio da Wildlife Conservation Society e da Fundação Moore.
A metodologia coloca a ciência dentro da rotina comunitária. O foco está em engajar estudantes que convivem com pescadores em casa ou no entorno social. Pais, avós, tios, vizinhos e amigos passam a integrar esse processo, porque o jovem cientista acompanha a atividade de um pescador e registra informações por meio de entrevistas, observação e coleta de dados.
Na prática, o peixe que chega à mesa da família ou ao comércio local também se transforma em informação científica. Esse cruzamento entre vivência cotidiana e método de pesquisa ajuda a construir conhecimento mais próximo da realidade ribeirinha e, ao mesmo tempo, reforça a importância da pesca para a manutenção da vida nas comunidades amazônicas.
Logística desafiadora revela a dimensão do trabalho no Madeira
Para chegar às escolas e aos moradores, a equipe técnica enfrenta uma logística extensa a partir de Porto Velho. Os deslocamentos combinam estrada, travessia fluvial e pequenos trechos em embarcações, revelando uma Amazônia marcada por grandes distâncias e por acessos que mudam conforme o território e o período de chuvas.
A escola de Cujubim Grande fica a 33 quilômetros da área urbana de Porto Velho, enquanto Jaci-Paraná está a cerca de 80 quilômetros. Já para chegar a São Carlos, a 70 quilômetros da capital, é preciso cruzar o rio Madeira. No caso da Resex do Lago do Cuniã, o percurso inclui travessia do Madeira, trecho de estrada de terra e deslocamento final em pequenas embarcações.
O distrito de Nazaré representa um dos deslocamentos mais longos da expedição. A viagem segue de carro até a boca do rio Jamari e continua por cerca de uma hora de barco. Os percursos mostram que a produção de conhecimento científico na Amazônia depende, antes de tudo, de presença contínua no território.
Engajamento escolar é prioridade no novo ciclo
Além da expansão geográfica, a equipe tenta enfrentar outro desafio: a evasão registrada no ano passado. Em 2026, a estratégia passa por maior envolvimento das escolas, com fortalecimento do vínculo com gestores e professores e inserção mais orgânica da iniciação científica na rotina escolar.
De acordo com a analista ambiental Dayana Catâneo, a permanência dos alunos depende também de uma mudança de perspectiva sobre o lugar onde vivem. O trabalho busca mostrar aos estudantes que o rio Madeira, segundo maior rio da bacia amazônica e dono da maior ictiofauna já descrita, faz parte da identidade da comunidade e representa um patrimônio ambiental de enorme relevância.
O engajamento dos estudantes também conta com bolsas do programa Jovem Cientista da Pesca Artesanal, do Ministério da Pesca e Aquicultura e do CNPq. A repercussão da iniciativa já alcançou dimensão nacional com a participação da jovem cientista Fernanda Oliveira no lançamento do novo edital em Brasília.
Moradora da comunidade de Terra Caída, Fernanda faz diariamente o trajeto fluvial até a escola em São Carlos. Para ela, a nova etapa pode ampliar o número de estudantes interessados e, consequentemente, elevar a coleta de dados. O relato mostra como a política pública e o trabalho de campo podem caminhar juntos para abrir novas perspectivas aos jovens da região.
Ciência no cotidiano fortalece identidade e orgulho ribeirinho
O biólogo Felipe Lins, integrante da equipe técnica, acompanha estudantes desde os primeiros anos do ensino médio e observa mudanças na forma como eles enxergam a própria realidade. Segundo ele, os jovens passam a se perceber como parte de um território rico em biodiversidade e tradição, enquanto desenvolvem olhar mais atento sobre os peixes, a pesca e o trabalho realizado por suas famílias.
Esse processo altera até o vocabulário dentro de casa. A partir das anotações e observações feitas pelos alunos, surgem perguntas sobre espécies consumidas, quantidade de peixes disponíveis e mudanças percebidas ao longo do tempo. A pesquisa científica, portanto, deixa de ser um conteúdo distante e passa a fazer parte da rotina alimentar, produtiva e cultural das comunidades.
Formação científica
Os estudantes participam da coleta e interpretação de dados sobre a pesca em suas comunidades.
Valorização cultural
O projeto reforça o reconhecimento do saber tradicional e da identidade ribeirinha.
Impacto local
A pesquisa contribui para ampliar a compreensão sobre a pesca artesanal e seu papel na subsistência.
A graduanda de Biologia da UNIR, Jamile Ferreira, resume esse caráter horizontal da produção de conhecimento ao destacar que também aprende com os resultados obtidos pelos alunos. A troca entre equipe técnica e comunidade ajuda a consolidar um modelo de pesquisa mais próximo da realidade local e mais sensível à vida na Amazônia.
Com novo ciclo, ampliação territorial e reforço do vínculo com as escolas, o projeto aposta no protagonismo juvenil para produzir ciência a partir de quem vive o rio todos os dias. Mais do que formar pesquisadores, a iniciativa amplia o olhar sobre a pesca artesanal e fortalece a conexão entre escola, território e comunidade.
Fotos: Joshua Lacerda/Acervo Ecoporé


