Modelo brasileira em concurso no Equador ligado a recrutador associado a Jeffrey Epstein em 2004.
Concurso internacional no Equador colocou adolescente brasileira no centro de evento organizado por agente ligado a Epstein.

Uma modelo brasileira escapou de viajar aos Estados Unidos com um recrutador ligado a Jeffrey Epstein graças à decisão firme da mãe. O episódio ocorreu em 2004, quando a jovem tinha apenas 16 anos e participou de um concurso internacional no Equador organizado por Jean-Luc Brunel, agente francês que, anos depois, enfrentou acusações de integrar a rede de aliciamento do bilionário.

Hoje, ao revisitar o caso, ela resume: “Minha mãe me salvou”.

Concurso prometia fama internacional e prêmio milionário

Naquele ano, Gláucia Fekete iniciava a carreira após ter sido descoberta ainda adolescente. Logo depois, recebeu o convite para disputar o Models New Generation, realizado em Guayaquil. O prêmio anunciado era de US$ 300 mil. Além disso, os organizadores prometiam contratos internacionais e embarque imediato para Nova York.

Entretanto, documentos divulgados posteriormente pelas autoridades americanas revelaram que Jeffrey Epstein esteve na cidade na mesma data da final do concurso. Embora não exista prova direta de irregularidade naquele evento específico, o contexto levantou questionamentos importantes.

Recrutador visitou família no interior do Rio Grande do Sul

Gláucia Fekete foi ao Equador em evento de moda organizado por Brunel em 2004

Antes da viagem, Jean-Luc Brunel foi pessoalmente ao interior do Rio Grande do Sul para convencer a família da jovem. Durante a visita, ele reforçou as promessas de projeção internacional. Além disso, garantiu que a carreira estaria praticamente assegurada.

Contudo, a mãe da adolescente demonstrou desconfiança desde o início. Ainda assim, após insistência e mediação do setor, autorizou a participação no concurso, mas manteve vigilância constante.

Mudanças inesperadas e dificuldades de contato

No Equador, a situação mudou rapidamente. Primeiramente, a promessa de vitória deixou de existir sob a justificativa de critérios físicos. Em seguida, a jovem percebeu que não conseguia manter contato frequente com a família, apesar do combinado antes do embarque.

Além disso, ela não recebeu qualquer valor financeiro pelo trabalho realizado. Portanto, o episódio passou a gerar dúvidas e frustração.

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Proposta para viajar aos EUA foi recusada

Depois do concurso, Brunel ofereceu uma nova proposta: viagem imediata aos Estados Unidos, com todas as despesas pagas. Segundo ele, a jovem participaria de “shows” e castings em Nova York.

No entanto, a mãe recusou prontamente. Ela não autorizou a saída do país.

Posteriormente, investigações revelaram que a agência de Brunel utilizava contratos e vistos como instrumento para atrair jovens ao círculo de Epstein. Inclusive, depoimentos judiciais indicaram que a agência recebeu investimentos milionários do bilionário.

Documentos apontam presença de Epstein no Equador

E-mails divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos mostram que Epstein esteve em Guayaquil um dia antes da final do concurso. Além disso, registros indicam reservas de hotel, transporte e abastecimento de aeronave na cidade naquela data.

Embora as participantes não relatem contato direto com o bilionário, o cruzamento de informações reforçou o peso das investigações.

Decisão materna mudou o rumo da história

Gláucia Fekete guarda imagens da época de modelo

Com o passar dos anos, Gláucia compreendeu o risco que correu. Em 2019, novas reportagens internacionais reabriram o debate sobre a atuação de Epstein e seus associados. Foi então que ela conectou os fatos.

Se tivesse viajado para Nova York, o desfecho poderia ter sido diferente.

Por isso, hoje ela reconhece a importância da intervenção familiar. “Minha mãe me salvou”, afirma.

Jean-Luc Brunel foi preso na França em 2020 sob acusações de estupro e tráfico de menores. Em 2022, ele morreu na prisão antes do julgamento. Já Jeffrey Epstein morreu em 2019, enquanto aguardava julgamento por crimes sexuais nos Estados Unidos.

Indústria da moda exige alerta constante

O caso evidencia vulnerabilidades históricas no setor da moda, especialmente quando envolve adolescentes. Promessas de sucesso rápido, viagens internacionais e contratos milionários podem seduzir famílias e jovens.

Entretanto, acompanhamento responsável, verificação de antecedentes e análise jurídica reduzem riscos.

Nesse episódio, uma decisão firme evitou um possível desfecho trágico.

Fonte: BBC Brasil