Sites que apoiam Bolsonaro apagaram vídeos nos últimos meses, segundo levantamentos de monitoramento digital que analisam a atuação de canais e páginas alinhados ao bolsonarismo na internet. Os dados indicam que o desaparecimento de conteúdos acelerou entre maio e junho, justamente em um período de maior pressão institucional e avanço de investigações ligadas à circulação de informações falsas e ataques ao Supremo Tribunal Federal.
As informações reunidas no material apontam estudos do Monitor do Debate Político no Meio Digital, projeto ligado à USP, e também da empresa Novelo Data. Os levantamentos mostram que o apagamento de vídeos ocorreu em escala relevante e passou a chamar atenção por envolver conteúdos políticos, canais com grande alcance e possível relação com o ambiente jurídico em torno do inquérito das fake news.
Sites que apoiam Bolsonaro apagaram vídeos entre os conteúdos mais vistos
Segundo os pesquisadores, entre abril e maio foram identificadas 1.874 menções ao STF em canais de vídeo que apoiavam o governo do então presidente Jair Bolsonaro. Parte dessas publicações continha críticas consideradas lícitas, mas outra parte trazia ataques ao Supremo, incluindo referências ao fechamento da Corte por meio de intervenção militar ou de ação direta do Poder Executivo.
Dentro desse universo, os estudiosos apontaram que 25 dos 100 vídeos mais vistos deixaram de estar disponíveis porque foram apagados por quem os publicou. O dado chamou atenção porque o desaparecimento não ocorreu apenas em conteúdos periféricos ou pouco acessados, mas também em materiais que tinham ganhado grande alcance dentro do ecossistema digital monitorado.
Levantamentos indicam aumento no ritmo dos vídeos deletados
Outro recorte citado no material mostra a evolução do número de vídeos retirados do ar em canais alinhados ao bolsonarismo desde junho do ano anterior. Os dados apontam 8 vídeos em junho de 2019, 1.136 em janeiro de 2020, 1.112 em maio e 2.015 em junho. A sequência sugere uma intensificação expressiva do movimento de remoção em um intervalo relativamente curto.
De acordo com Guilherme Felitti, fundador da Novelo Data, parte desses conteúdos saiu das listas públicas dos canais ou passou a ficar acessível apenas por meio de link direto. Na prática, isso reduz a visibilidade do material e dificulta o rastreamento espontâneo por usuários comuns, embora nem sempre signifique exclusão definitiva do arquivo das plataformas.
Vídeos deletados no levantamento
- Junho de 2019: 8
- Janeiro de 2020: 1.136
- Maio: 1.112
- Junho: 2.015
Inquérito das fake news entrou no centro da discussão
O avanço do apagamento de conteúdos também passou a ser observado à luz das medidas tomadas pelo Supremo Tribunal Federal. O material lembra que, em 27 de maio, a Polícia Federal cumpriu 29 mandados de busca e apreensão em cinco estados e no Distrito Federal, por ordem do ministro Alexandre de Moraes. A investigação mirava a divulgação de informações falsas sobre o STF e ameaças contra ministros e seus familiares.
Antes disso, o então presidente do Supremo, Dias Toffoli, já havia afirmado que o inquérito das fake news tinha produzido efeito inibidor sobre comportamentos que geravam instabilidade institucional. A observação reforçou a leitura de que o ambiente jurídico poderia ter influenciado a retirada de conteúdos por parte de produtores e canais investigados ou alinhados a esse ecossistema político-digital.
Especialistas avaliam impacto jurídico do apagamento de conteúdos
Na análise de especialistas em direito digital, plataformas e empresas não são obrigadas a manter permanentemente um vídeo publicado depois que ele é removido pelo responsável. Ainda assim, em caso de ordem judicial, podem colaborar com o envio do conteúdo eventualmente ainda armazenado, o que pode ser decisivo para investigações sobre autoria, contexto e intenção da publicação.
Também foi apontado que, se ficar demonstrado um apagamento intencional com o objetivo de ocultar provas ou atrapalhar a atuação da Justiça, a prática pode ganhar relevância penal. Essa avaliação amplia o peso do debate porque desloca a discussão do campo político para uma possível consequência jurídica sobre o desaparecimento de vídeos em momento sensível.
Mais informações sobre monitoramento do debate político digital e pesquisas sobre plataformas podem ser acompanhadas em centros acadêmicos e observatórios especializados, como o portal do Universidade de São Paulo.


