A taxa de desemprego no Brasil caiu para 11,8% no trimestre encerrado em julho, atingindo 12,6 milhões de pessoas, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (30) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Trata-se da quarta queda seguida na comparação com o mês anterior e da menor taxa de desemprego registrada no ano, representando recuo também em relação ao mesmo período de 2018, quando ficou em 12,3%. O desemprego, entretanto, ainda é maior que o registrada no trimestre encerrado em dezembro (11,6%). Veja gráfico abaixo:
O número de desempregados diminuiu 4,6% (menos 609 mil pessoas) em 3 meses e caiu 2% (menos 258 mil) em relação a igual período de 2018.
A população ocupada no país somou 93,6 milhões de pessoas em julho, o que representa um crescimento de 1,3% (mais 1,2 milhão de pessoas) em relação ao trimestre encerrado em abril. Trata-se também da maior população ocupada da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012. Em 1 ano, o contingente de ocupados aumentou em 2,2 milhões de brasileiros, alta de 2,4%.
Os números do IBGE mostram, entretanto, que a recuperação do mercado de trabalho tem sido ditada sobretudo pelo aumento do trabalho informal e da subocupação.
“O desemprego está caindo porque há uma transferência para a subocupação. Ou seja, a redução da desocupação se dá pela ocupação em vagas subutilizadas”, resumiu o gerente da PNAD Contínua, Cimar Azeredo.
“A população ocupada é recorde, mas 42,3% dessa população é de trabalhadores informais”, completou. No mesmo trimestre do ano passado, os informais representavam 40,5% da população ocupada.
Dos 2,2 milhões de postos de trabalho gerados no país em 1 ano, 1.192 corresponderam a trabalhadores por conta própria, sendo apenas 327 mil com CNPJ. Outros 619 mil referem-se a empregos sem carteira e 107 mil ao trabalho familiar auxiliar. Ou seja, cerca de 75% das vagas criadas estão relacionadas ao trabalho informal.
Trabalhos sem carteira e por conta própria batem novo recorde
O número de empregados no setor privado sem carteira assinada subiu 5,6% em 1 ano, atingindo 11,7 milhões (mais 619 mil pessoas), maior valor já registrado pela pesquisa. Já o número de trabalhadores por conta própria aumentou 5,2% frente ao mesmo período de 2018, atingindo o recorde de 24,2 milhões (mais 1,2 milhão de pessoas).
Já o número de empregados com carteira assinada ficou praticamente estável em julho, segundo o IBGE, reunindo 33,1 milhões de pessoas.
“Aquele avanço da carteira assinada que observamos no trimestre anterior não se repetiu. Tinha-se a expectativa de que ela seguiria crescendo. O que se confirma nessa divulgação é a redução da desocupação pela informalidade e pela subocupação”, avaliou Azeredo.
“Nas crises de 2003 e de 2008, o mercado de trabalho começou a se recuperar a partir da informalidade, que permitiu reaquecer o mercado e, gradativamente, aquelas vagas informais foram tendo a carteira assina. Mas essa crise de agora, além de já durar mais tempo que as anteriores, ela devastou muitos mais postos de trabalho”, disse o pesquisador.
A economia brasileira criou 43.820 empregos com carteira assinada em julho, segundo números divulgados na semana passada pelo Ministério da Economia. Os números oficiais mostram também que, nos sete primeiros meses deste ano, foram criados 461.411 empregos com carteira assinada – alta de 2,93% frente ao mesmo período do ano passado.
O número de trabalhadores domésticos, estimado em 6,3 milhões de pessoas, cresceu 2,2% em relação ao trimestre anterior e ficou estável frente ao mesmo trimestre de 2018.
Falta trabalho para 28,1 milhões
A taxa de subutilização da força de trabalho recuou para 24,6% em julho, ante 24,8% no trimestre encerrado em junho. Isso significa que ainda falta trabalho atualmente para 28,1 milhões de brasileiros, número 2,6% superior (mais 703 mil pessoas) ao registrado há 1 ano.
São considerados subutilizados os trabalhadores que estão desempregados, os que trabalham menos de 40 horas semanais, mas gostariam de trabalhar mais, os que não estão desempregados, mas não poderiam aceitar uma vaga no mercado, e aqueles que desistiram de procurar por emprego, chamados de desalentados.
O número de desalentados ficou estável em 4,8 milhões no trimestre encerrado em julho. O percentual de pessoas desalentadas em relação à população na força de trabalho foi de 4,4%, repetindo o recorde da série.
Número recorde de subocupados
Já o número de pessoas subocupadas, trabalhando menos horas do que gostariam, chegou a 7,3 milhões, o que segundo o IBGE representa um recorde da série histórica comparável. Em relação ao mesmo trimestre de 2018, houve uma alta de 12,4% (mais 810 mil pessoas).
Segundo o IBGE, no mesmo trimestre do ano passado, os desocupados correspondiam a 46,8% da força de trabalho do país, enquanto os subocupados representavam 23,8%. Neste trimestre, estes percentuais foram, respectivamente, de 44,7% e 26,1%.
Rendimento médio tem nova queda
O rendimento médio real do trabalhador caiu 1% na comparação com o trimestre encerrado em abril, passado de R$ 2.311 para R$ 2.286. Na comparação anual ficou estatisticamente estável.
Segundo Cimar Azeredo, coordenador da pesquisa, a queda reflete o avanço dos “trabalhos voltados à informalidade, que têm rendimento menor”.
Já a massa de rendimento real habitual somou R$ 208,6 bilhões, o que representa estabilidade em relação ao trimestre anterior e alta de 2,2% frente ao mesmo período de 2018.
Em menos de 90 dias após o chamamento público para atendimento no transporte fluvial de estudantes que residem nas regiões rurais ribeirinhas de Porto Velho e distritos, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) informa que, a partir desta segunda-feira (2), 16 embarcações iniciam o atendimento aos estudantes da rede pública municipal e estadual.
Para realizar o transporte fluvial dos estudantes, a empresa vencedora precisava atendente às especificações técnicas estipuladas no edital e as exigências estabelecidas pela Marinha do Brasil para este tipo de transporte, tais como: pilotos capacitados e habilitados; coletes salva-vidas; equipamentos de segurança; grades laterais para proteção contra quedas; cobertura para proteção contra sol e chuva, cobrindo todos os assentos; bancos almofadados; encostos das laterais; estrado em alumínio; entre outras características específicas.
De acordo com a Seduc, no total são 79 embarcações e a empresa responsável já está apresentando 16 delas para iniciar o transporte dos alunos nesta segunda-feira.
A parte da documentação do processo de contrato da empresa já está resolvida, não há nada que impeça as embarcações de começarem o transporte dos estudantes, pois os barcos e as documentações dos 16 pilotos habilitados já passaram por duas vistorias da Marinha, a qual emitiu um laudo favorável liberando as embarcações para o transporte dos estudantes. A Secretaria informou, ainda, que também estará fiscalizando todo o transporte dos estudantes para certificar de que tudo ocorrerá conforme as exigências contratuais.
O secretário da Seduc, Suamy Vivecananda, disse que a preocupação do governo não é achar culpado para a situação, mas resolver o problema para que os estudantes não sejam mais prejudicados e venham perder o ano letivo. Ele disse ainda que tudo está correndo conforme o prazo legal, e que de início a empresa está apresentando as 16 embarcações, tendo o prazo de 10 dias, a contar da próxima segunda-feira (2), para apresentar as demais embarcações que atenderão os 1.016 estudantes da rede municipal e estadual de ensino, sendo 40% estadual e 60% municipal. Ele também salientou o trabalho da Marinha que se disponibilizou atender a Secretaria com urgência, entendendo a gravidade do caso.
O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou nesta quinta-feira, 29, liminar na ação em que a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), preso e condenado na Lava Jato, pede que a Corte reconheça a suposta suspeição dos procuradores da operação e a anulação de processos contra o petista.
A ação contesta decisão da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que não reconheceu a suspeição de Deltan Dallagnol, Roberson Henrique Pozzobon, Laura Tessler e outros dez procuradores que integram a força-tarefa em Curitiba. A defesa afirmou ao STF que o tema tem relação com o processo no qual Lula alega que o ex-juiz Sergio Moro, hoje ministro da Justiça, seria parcial – também tramitando no Supremo.
Na decisão, Fachin lembra que a Segunda Turma negou recentemente conceder liminar no processo relativo a Moro. “Sendo assim, prima facie, sem prejuízo de ulterior reapreciação da matéria no julgamento final do presente habeas corpus, indefiro a liminar”, disse o relator da Lava Jato no STF.
Fachin também negou um pedido da defesa de Lula de produção de provas. O petista havia pedido que o ministro Alexandre de Moraes fosse consultado sobre a possibilidade de compartilhamento das supostas mensagens trocadas entre os procuradores e outras autoridades, que digam respeito a Lula.
O conteúdo de mensagens trocadas entre agentes públicos foi apreendido durante a Operação Spoofing, que resultou na prisão de quatro suspeitos de hackear telefones de autoridades, entre elas o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça. A investigação tramita na 10ª Vara Federal do Distrito Federal.
Por sua vez, o material foi anexado em inquérito sigiloso que tramita no Supremo sob relatoria de Moraes, que apura ‘fake news’ contra o STF e ministros da Corte. Na decisão assinada nesta quarta-feira, Fachin afirma que os elementos a que Lula gostaria de ter acesso não estão submetidos a sua relatoria. “Ademais, a jurisprudência desta Suprema Corte é firme no sentido de que o habeas corpus não comporta produção probatória”, disse o ministro.
Fachin ainda pediu informações ao STJ, já que o mérito da ação apresentada pelo petista ainda será decidido futuramente. Na liminar, a defesa do ex-presidente pedia que Lula fosse posto em liberdade imediata e que processos contra ele fossem suspensos, até que a Corte avalie a suposta suspeição dos procuradores da Lava Jato.
O deputado federal Eduardo Bolsonaro, indicado pelo pai, o presidente Jair Bolsonaro, para ser o novo embaixador do Brasil em Washington, nos Estados Unidos, visitará nesta sexta-feira a Casa Branca junto com o chanceler Ernesto Araújo, e é provável que ambos se reúnam com o presidente americano, Donald Trump, para falar, entre outros temas, sobre os incêndios na Amazônia.
Segundo a Agência Efe, fontes do governo americano confirmaram que a comitiva brasileira se reunirá com “funcionários do alto escalão” e que, depois desse encontro, é “provável” que ambos compareçam ao Salão Oval para se reunir com Trump e com o secretário de Estado americano, Mike Pompeo. A fonte da Casa Branca disse, no entanto, que não podia “garantir” que Trump vai receber o deputado e o chanceler.
O anúncio da visita foi feito na quinta-feira, pelo presidente Jair Bolsonaro, durante evento no Palácio do Planalto para lançar o programa “Em frente Brasil”. Durante a cerimônia, Bolsonaro fez um agradecimento ao presidente dos EUA por ter feito a “defesa” do Brasil durante a reunião mais recente dos países que formam o G7, no último final de semana.
Bolsonaro disse que o governo vai se aproximar cada vez mais de países “que servem de exemplo”. “Espero que Ernesto e Eduardo sejam bem-sucedidos na viagem. Que nós devemos e vamos, como mudou a direção, nos aproximar de países que servem de exemplo para nós”, discursou Bolsonaro.
Após o evento, Eduardo afirmou que falará com Trump sobre o último encontro dos países que formam o G7 e questões envolvendo a região amazônica. “Trump dá muita abertura, então certamente a gente vai entrar nessas questões”, disse Eduardo. “Estarei ao lado do ministro Ernesto fazendo agradecimento como deputado porque o peso do norte-americano dentro do G-7 é essencial.”
Para Eduardo, o fim da reunião do G7 deixou claro que o presidente francês, Emmanuel Macron, tentou usar a Amazônia para fins políticos. “Macron acabou não tendo êxito”, avaliou.
Questionado se ele também trataria da sua indicação para a embaixada do Brasil em Washington com Trump, que ainda precisa passar pelo Senado Federal, Eduardo disse que essa é uma questão para conversar com os senadores. “Tenho que falar com senadores. Já tenho apoio dos EUA através do agrément, agora quem vai decidir são os senadores”, respondeu.
Sobre a possibilidade da viagem reforçar a boa relação que tem com Trump justamente para convencer os senadores, Eduardo avaliou que “a boa relação já é notória”. “Os senadores sabem dessa boa relação. Trump fez publicamente o meu agrément.”
A Semana do Brasil, evento criado pelo governo para a semana do 7 de setembro, já conta com a adesão de pelo menos 300 empresas. Embora seja liderado por Luciano Hang, da Havan, e Flavio Rocha, da Riachuelo, ambos alinhados ao bolsonarismo, o “Black Friday da Pátria” não será colorido apenas de verde amarelo. Empresas cujos donos se consideram “de esquerda” aderiram à onda de descontos. Todos de olho na oportunidade de aquecer as vendas em um mês sem datas fortes no varejo. Um princípio muito utilizado no Direito Tributário diz que o dinheiro não tem cheiro (pecunia non olet). A expressão surgiu a partir do diálogo ocorrido entre o Imperador Vespasiano e seu filho Tito, quando este indagou o pai sobre a razão pela qual ele havia decidido tributar os usuários de banheiros públicos na Roma Antiga. Agora, vemos que o dinheiro, além de não ter cheiro, também não tem cor.
Considerado um marco na inclusão de atletas com deficiência física e intelectual, o governo de Rondônia, por meio da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), realizará a Etapa Estadual Paralímpica dos Jogos Escolares de Rondônia em Vilhena, evento que será oficialmente aberto amanhã (30), a partir das 19h, no Ginásio Geraldão. Está é a primeira vez que o Cone Sul sedia a competição.
De acordo com o responsável pela realização do evento, o gerente de Esporte Escolar da Seduc, professor Ítalo Aguiar, estarão participando quase 600 integrantes credenciados das delegações de todo Estado. “São os campeões regionais que estarão nesta fase representando seus municípios em Vilhena”, disse o organizador.
A competição, ainda segundo ele, começa no dia 30 e representa um marco na inclusão de atletas com deficiência física e intelectual no mundo esportivo.
Ítalo disse que a comissão dos jogos escolheu os seguintes locais de competição: Ginásio do Geraldão, Ginásio Jorge Teixeira, Ginásio da Associação Vilhenense de Voleibol (AVV), Clube dos Estados, Estádio Portal da Amazônia e o Centro de Tradições Gaúchas (CTG).
Segundo ele, as modalidades disputadas serão futsal, futebol de sete, atletismo, bocha, bocha adaptada, judô, natação e tênis de mesa. O conhecido Clube dos Estados será, segundo Ítalo, o centro de convivência e refeição dos atletas.
No total, serão sete delegações de municípios, quatro delegações representando regiões do Estado e outras três macro-regionais: (1) Cone Sul – Vilhena e região; (2) Centro Oeste – Cacoal, Pimenta Bueno e região; (3) Centro – Ji-Paraná, Alvorada e região e (4) Regional Oeste – Mamoré, Guajará-Mirim e região.
As macro-regionais, segundo ele, são (1) Centro-Sul – Rolim de Moura e municípios da região; (2) Noroeste – Jaru, Ariquemes e municípios e (3) Metropolitana que engloba Porto Velho, Itapuã e municípios.
A política ambiental do presidente Jair Bolsonaro, destaque nas manchetes globais devido a polêmicos embates com governos europeus e à ampla repercussão de focos de incêndios na Amazônia, pode resultar em futuros problemas comerciais para o Brasil com a Europa.
É o que indicam deputados de centro-direita, centro-esquerda e esquerda do Parlamento alemão ouvidos pela BBC News Brasil em Berlim ao longo da última semana – alguns chegaram a usar os termos “infantil” e “valentão” para descrever o líder brasileiro.
Ao mesmo tempo em que governos de França, Finlândia e Irlanda levantaram, entre quinta e sexta-feira (22 e 23/8), a possibilidade de retaliar o Brasil e o Mercosul no âmbito comercial, parlamentares do Partido Verde (uma força emergente na política alemã), do Partido Social-Democrata (SPD, de centro-esquerda, da coligação governista) e do Partido Democrático Liberal (FDP, de centro-direita e da oposição) também demonstraram preocupação, em diferentes níveis, com o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul.
Enquanto membros dos verdes e do SPD dizem que o acordo pode estar em risco – os verdes até mencionam uma restrição europeia a produtos brasileiros ligados aos desmatamento da Amazônia -, os deputados do FDP são mais moderados.
Pró-comércio, os liberais-democratas defendem o acordo, mas consideram haver riscos para o pacto caso o Brasil não cumpra seu compromisso de desenvolvimento sustentável e de respeitar o Acordo Climático de Paris.
Embora nem sempre o façam explicitamente, os parlamentares do FDP não descartam a possibilidade de eventuais restrições ao Brasil.
Contudo, apoiam medidas nesse sentido apenas dentro dos mecanismos de monitoramento previstos no acordo UE-Mercosul. Os verdes, por outro lado, alegam que esse sistema não tem poder para impor punições a quem violar o tratado.
“Se o Brasil não prestar atenção à sustentabilidade de seus produtos, eles não terão chance no mercado europeu. Com ou sem acordo com o Mercosul”, afirma a deputada Yasmin Fahimi (SPD), presidente do Grupo Parlamentar Teuto-Brasileiro.
“Creio que possa haver medidas temporárias para colocar pressão no governo brasileiro, mas definitivamente precisamos do acordo UE-Mercosul também porque ele oferece uma plataforma e legitimidade a esse diálogo”, argumenta a deputada Sandra Weeser (FDP), integrante do Comitê de Relações Exteriores do Parlamento alemão.
Weeser, entretanto, preferiria não implementar “novas barreiras ao comércio”.
A linguagem que ele (Bolsonaro) entende é o comércio. É, portanto, necessário deixar de importar produtos que destruam a floresta tropical’, diz Katharina Dröge, deputada alemã
Brigas com a maior economia da Europa
Brasília e Berlim têm trocado farpas sobre temas ambientais nos últimos meses.
Em junho, durante a reunião do G20 que selou o princípio de acordo UE-Mercosul, Bolsonaro ficou irritado com um comentário de Angela Merkel, no qual a chanceler (premiê) alemã demonstrava preocupação com a proteção ao meio ambiente no Brasil.
Em agosto, o Ministério do Meio Ambiente da Alemanha, em meio aos expressivos níveis de desmatamento na Amazônia, bloqueou R$ 156 milhões para projetos de conservação na região e questionou o comprometimento brasileiro em combater o problema.
A maior economia europeia também indicou que a ratificação do acordo com o Mercosul estava em risco caso o Brasil não cumprisse as obrigações ambientais.
Bolsonaro, contudo, debochou da suspensão da verba. O presidente disse que o Brasil “não precisa disso (dinheiro)” e mandou Merkel pegar “essa grana” e “reflorestar a Alemanha” porque “lá está precisando muito mais do que aqui”.
O tom da resposta não agradou na Alemanha. Deputados ouvidos pela reportagem repudiaram a falta de diplomacia do presidente e disseram que Bolsonaro “joga contra o próprio interesse”, além de chamá-lo de “valentão” e “infantil” pela forma como lidou com a pressão de Berlim.
Membros dos verdes começam a questionar se a estratégia alemã de enviar recados simbólicos terá algum efeito e passam a aventar medidas mais agressivas, como a restrição na Europa à soja e carne bovina brasileiras.
“A linguagem que ele entende é o comércio. É, portanto, necessário deixar de importar produtos que destruam a floresta tropical e bloquear a conclusão do acordo comercial UE-Mercosul”, diz Katharina Dröge, do Partido Verde, legenda que já aparece como a maior força política na Alemanha à frente da União Democrata-Cristã (CDU) de Merkel.
Para Uwe Kekeritz, os comentários de Bolsonaro ilustram sua falta de interesse em questões ambientais. “Em vez de congelar fundos para a conservação do clima e da floresta, é necessário parar de importar produtos que destruam a floresta tropical.”
Bobão de Ipanema’: TV pública alemã fez sátira sobre visão de Bolsonaro sobre meio ambiente
Andreas Nick, deputado da CDU e membro do Comitê de Relações Exteriores do Parlamento alemão, também alerta para a necessidade de o Brasil buscar a sustentabilidade. “O Brasil é depositário da floresta tropical como um dos tesouros globais da humanidade. Isso faz com que seja necessário equilibrar o direito de desenvolvimento econômico com as responsabilidades pelo ecossistema global. O governo da Alemanha está disposto a apoiar o Brasil neste desafio.”
Como as políticas e regras de comércio dos países da UE são definidas pelo bloco, os deputados alemães não poderiam impor sozinhos restrições a produtos brasileiros na Alemanha ou na Europa. Contudo, eles teriam como influenciar o governo alemão, deputados do Parlamento europeu e a Comissão Europeia a adotarem tal medida em toda a UE.
Como fica o acordo UE-Mercosul?
Os parlamentos nacionais dos países-membros da UE devem ter um papel crucial no destino do acordo com o Mercosul, uma vez que têm o poder de vetá-lo.
Segundo a Comissão Europeia, apesar de a ratificação dos tratados comerciais do bloco variar, pactos semelhantes ao do Mercosul precisaram ser validados pelos parlamentos nacionais de todos os integrantes da UE, além do Parlamento Europeu e do Conselho de Ministros da UE.
Nesse contexto, os deputados verdes e da SPD sugeriram que a retórica de Bolsonaro sobre o meio ambiente, aliada à impaciência do presidente para críticas no tema, pode impactar a ratificação do acordo com o Mercosul no Parlamento alemão.
Os parlamentares do FDP admitem que as ações de Bolsonaro representam um risco para o acordo, mas acreditam que a sua ratificação ainda é a melhor saída para os interesses comerciais de Brasil e Alemanha. Eles reforçam que o acordo implica no cumprimento da Acordo de Paris, o que ajudaria a conter o desmatamento no Brasil.
“O acordo UE-Mercosul é o melhor veículo para estabelecer padrões internacionais de sustentabilidade. Isso também significa que se um lado não respeitar as disposições, o outro lado pode sancioná-lo. Isso nos ajudará a cuidar para que o governo brasileiro comece a combater o desmatamento e não o encoraje mais”, diz Weeser.
Segundo Bijan Djir-Sarai, porta-voz do FDP no Comitê de Relações Exteriores, a “retórica parcialmente ofensiva” de Bolsonaro em relação à Alemanha não é um perigo para o acordo, mas a violação dos princípios fundamentais em que o acordo se baseia. “Suas ações causam mais danos do que suas palavras”, diz.
Bolsonaro, prossegue o deputado, “espezinha o Acordo Climático de Paris”. Logo, a Alemanha “deve examinar criticamente a parceria com o Brasil, se o país violar o capítulo de desenvolvimento sustentável do acordo com o Mercosul”.
A deputada Renata Alt (FDP), integrante do mesmo comitê, se refere ao presidente brasileiro como “o responsável pela destruição da Floresta Amazônica”. “A Alemanha deveria repensar o relacionamento bilateral enquanto Bolsonaro continuar nesse caminho”, defende.
Alt acredita que o acordo “é um símbolo importante contra o protecionismo”, mas respeitar o Acordo de Paris “é uma parte importante do acordo UE-Mercosul”. “Consequentemente, não é apenas a retórica agressiva de Bolsonaro, mas suas ações que colocam o acordo em risco”, alerta.
Bolsonaro e Merkel na cúpula do G20 em junho; ocasião em que Brasil e Alemanha trocaram farpas a respeito de política ambiental
Dúvidas no ar
Preocupados com os efeitos do desmatamento na Amazônia, Fahimi, Dröge e Kekeritz duvidam que Brasília esteja disposta a cumprir as regras de sustentabilidade do acordo.
“Creio que Bolsonaro e seu governo terão que decidir se querem ter um acordo comercial entre a UE e o Mercosul ou não. Na minha opinião, Bolsonaro faria bem ao levar em conta todo o cenário e não apenas o interesse do lobby agrícola”, diz Fahimi.
Para Dröge, as ações do presidente brasileiro “mostram claramente” que o acordo com o Mercosul “é insuficiente” para enfrentar os desafios da mudança climática. “Estou convencida de que, se Bolsonaro continuar nesse caminho, o apoio ao acordo irá encolher maciçamente entre a população alemã e também no Parlamento.”
Kekeritz, por outro lado, acredita que a Alemanha colocará os interesses comerciais em primeiro lugar. O deputado espera, contudo, que o acordo seja barrado nos parlamentos nacionais de outros países. “O governo pode ficar irritado com os comentários de Bolsonaro, mas não prejudicará os interesses das empresas alemãs.”
Ataques à chanceler e sátira na TV
Após o último embate do presidente com Merkel, Bolsonaro foi amplamente ridicularizado em horário nobre por um programa humorístico da ARD, a principal rede de televisão pública da Alemanha.
No episódio, o presidente é associado ao filme de terror O Massacre da Serra Elétrica e aparece em uma fotomontagem com uma sunga amarela característica do personagem Borat. Bolsonaro ainda foi chamado de “o boçal de Ipanema”, “o Trump do samba” e “bobo da corte do agronegócio”.
A sugestão de Bolsonaro para que Merkel use o dinheiro bloqueado ao Brasil para reflorestar a Alemanha foi considerada “infantil” por Fahimi. “A verdade é que Bolsonaro quer apenas encobrir seus interesses econômicos radicais.”
Bolsonaro, destaca Dröge, “certamente sabe que” a “floresta tropical brasileira tem uma função central para o clima mundial e uma biodiversidade única, que não pode ser substituída pelo plantio de árvores na Alemanha”.
Para Kekeritz, o presidente brasileiro “escolhe ficar do lado errado da história” ao “desafiar uma estratégia conjunta quando se trata da solução de questões globais vitais”. “A proteção das florestas brasileiras é fundamental para vencer a luta contra as mudanças climáticas. Ao fazer isso, ele está prestes a destruir não apenas o sustento da população brasileira, mas de todo o planeta e das gerações futuras.”
De dentro de sua cela solitária na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, onde está preso há mais de 500 dias, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanha a mudança de ares no Supremo Tribunal Federal (STF) quanto aos resultados da Operação Lava Jato.
Na terça-feira, véspera da entrevista concedida por Lula a BBC News Brasil e BBC News, a Segunda Turma da Corte anulou, por três votos a um, a condenação do ex-presidente do Banco do Brasil Aldemir Bendine, por entender que o então juiz Sergio Moro (hoje Ministro da Justiça) não lhe garantiu o amplo direito à defesa ao dar a ele e a delatores o mesmo prazo para alegações finais no processo.
O caso pode servir de precedente para anular a condenação no caso do sítio de Atibaia em primeira instância, retrocedendo em algumas etapas o processo que já está em análise do Tribunal Regional da 4ª Região. O presidente aguarda ainda julgamentos de recursos que podem cancelar todos os seus processos originados na Justiça de Curitiba, caso o STF considere que Moro e/ou os procuradores da força-tarefa da Lava Jato agiram de forma parcial.
Apesar do cenário mais favorável, o petista não bradou vitória antecipada, ao ser questionado pela BBC News Brasil se estava mais esperançoso sobre o julgamento dos seus recursos no Supremo. Ele cobrou “seriedade” da Corte para analisar cada processo, e avaliar quem é culpado ou inocente com base nas provas.
Questionado se achava que toda a Lava Jato deveria ser anulada, respondeu: “Não, eu acho que a operação Lava Jato tem coisas que foram verdade, tem pessoa que confessou. Se o cara confessou que roubou, o cara é ladrão”.
A entrevista, solicitada à Justiça em maio, foi autorizada no início de agosto. O presidente falou por uma hora ao repórter britânico da BBC News Will Grant, em entrevista para o público internacional, e por uma hora à repórter da BBC News Brasil Mariana Schreiber com foco na audiência brasileira.
Lula, que passa 22 horas por dia sem conversar com ninguém, fica visivelmente feliz ao conceder entrevista e se ressente quando o tempo estipulado pela PF se esgota.
“Pede uma concessão para ele de um minuto, p*”, brinca com o chefe de escolta e custódia da superintendência da PF, Jorge Chastalo, que acompanha a entrevista a curta distância do condenado. É ele que frequentemente mede o índice de glicemia no sangue de Lula, que é pré-diabético.
Confira a seguir a entrevista completa à BBC News Brasil, em que Lula responde a críticas a ele e ao PT sobre Belo Monte, fake news, alta do desemprego, Venezuela, entre outras.
BBC News Brasil – Presidente, seu governo foi marcado por forte redução do desmatamento na Amazônia, embora tenha tido alguns momentos de alta, como no início do governo e no ano de 2008. Naquela ocasião, o senhor criticou tentativas de interferência internacional no assunto de meio ambiente.
Agora, vemos esse cenário novamente, e o presidente francês, Emmanuel Macron, chegou a dizer que não descarta um debate sobre criar um “status internacional” para a Amazônia. O senhor mantém sua crítica a tentativas de interferência externa nessa questão? O senhor vê algum risco para a soberania do Brasil na Amazônia?
Luiz Inácio Lula da Silva – Eu vejo um risco da soberania da Amazônia com o discurso do (presidente Jair) Bolsonaro tentando colocar o filho dele (Eduardo Bolsonaro) de embaixador nos Estados Unidos, quem sabe para permitir que indústrias americanas venham pesquisar a Amazônia. Veja, todos nós brasileiros temos que defender a Amazônia como patrimônio brasileiro. A Amazônia faz parte do orgulho brasileiro.
Agora, para ela fazer parte do orgulho brasileiro nós temos que cuidar dela. Cuidar dela não significa transformá-la num santuário da humanidade. Significa criar condições para que os 20 milhões de homens e mulheres que moram lá tenham condições de trabalhar, de sobreviver, de ganhar sua vida, preservando o máximo possível o meio ambiente, levando para lá política de desenvolvimento que possa permitir cuidar da nossa floresta.
Até porque a grande riqueza que temos lá ainda quase que inexplorada é a nossa biodiversidade.
BBC News Brasil – O senhor vê algum problema nas declarações que têm sido feitas por líderes estrangeiros sobre a Amazônia? Ou são legítimas?
Lula – Primeiro, é importante lembrar que o Fundo Amazônia foi constituído no meu governo. Isso é uma demonstração de que eu não tenho nenhum problema de contribuir com outros países para ajudar a cuidar da Amazônia. Até porque eu dizia: “Se vocês querem ajudar a cuidar da Amazônia, ajudem para que o país possa ter uma política correta de desenvolvimento na Amazônia”.
Porque você não vai conseguir cuidar da preservação com as pessoas passando fome, com as pessoas sem ter onde trabalhar, com as pessoas sem ter rodovia, sem ter espaço para transitar. Então, é preciso fazer as duas coisas. Eu mantenho as críticas que eu fazia à minha amiga Angela Merkel (chanceler alemã), ao meu amigo Sarkozy (ex-presidente francês), aos ingleses. Por que eu mantenho? Porque o nosso comportamento em todos os fóruns internacionais foi exemplar, exemplar.
O que está acontecendo agora, uma parte das queimadas, é proposital. Já saiu na imprensa que o Ministério Público do Pará avisou ao Ibama com três dias de antecedência que por zap (WhatsApp) os fazendeiros estavam preparando o Dia do Fogo. E não foi tomada nenhuma atitude.
Eu queria te lembrar uma coisa, pega os discursos do Bolsonaro e do governo dele, eles acham que têm que acabar com terra indígena, acabar com terra de quilombo, que tem que acabar com reserva (florestal). É um absurdo.
Quando eu cheguei na Presidência, a ministra era a Marina da Silva. Ninguém pode dizer que a Marina era uma ministra que não se preocupava com Meio Ambiente, como ninguém pode dizer isso do Carlos Minc (que sucedeu Marina como ministro). Nós fomos estruturando o país para que depois de 2005 até a saída da Dilma o país fosse muito respeitado na sua política de preservação ambiental e no cuidado que a gente tinha com a nossa floresta.
BBC News Brasil – Mas o desmatamento começou a crescer em 2012, ainda no governo da presidente Dilma Rousseff. O que foi feito de errado no governo da presidente?
Lula – Eu não sei o que foi feito de errado no governo da Dilma. Você pode ter um ano que você cresce um pouco a mais um pouco a menos. Eu tenho até aqui os dados do crescimento, foi muito pouco [Lula consulta papéis com números do desmatamento na Amazônia]. O crescimento começou a aumentar, ele foi até, de certa forma, controlado em alguns instantes. Em 2012, no governo da Dilma, o desmatamento chegou… [Lula olha os números]. Não cresceu em 2012.
BBC News Brasil – Os dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) para o desmatamento vão de agosto de um ano a julho do seguinte. O dado de 2013 (que mostra alta do desmatamento) incorpora uma parte de 2012.
Lula – Então, deixa eu falar, em 2013 nós tivemos na Amazônia 5,8 mil km² (de desmatamento). Em 2012 havia 4,5 mil km². Foi o mais baixo [recorde histórico de baixa]. Se você vai comparar um quilômetro com dois quilômetros e meio, cresceu bastante, mas estamos falando que houve um decréscimo em todo o governo da Dilma [segundo os dados do Inpe, até meados de 2012]. Começou a crescer em 2015, (o desmatamento) foi para 6 mil km². Em 2016, foi para 6,8 mil km². 2017, para 7 mil km². Em 2018, para quase 8 mil km².
Em agora em 2019 não temos ainda a quilometragem (de área desmatada).
BBC News Brasil – Há uma tendência de crescimento desde 2012.
Lula – Mas é muito pouco.
BBC News Brasil – Gostaria de falar sobre o impacto da construção da usina de Belo Monte, em Altamira, no Pará. O senhor em 2010 prometeu, em discurso, que não seriam repetidos os erros das usinas de Balbina e Tucuruí [usinas localizadas na Amazônia que provocaram grande impacto ambiental]. No entanto, houve muitos erros na construção de Belo Monte.
O Ibama não queria liberar a licença ambiental sem antes revisar os estudos de impacto, e houve uma intervenção no órgão durante o seu governo para liberação da licença. Essa licença estabeleceu uma série de condicionantes para evitar que houvesse impactos sociais e ambientais. Essas exigências foram descumpridas e as licenças continuaram sendo liberadas. Houve uma ação leniente do Ibama durante seu governo e no governo Dilma com Belo Monte?
Lula – Posso dizer com sinceridade? Nunca houve intervenção do meu governo no Ibama. Alguém te deu informação totalmente equivocada.
[Nota de redação: Em dezembro de 2009, o diretor de licenciamento do Ibama, Sebastião Custódio Pires, e o coordenador-geral de infraestrutura de energia elétrica do órgão, Leozildo Tabajara da Silva Benjamim, deixaram seus cargos devido aos embates envolvendo a liberação da licença prévia de Belo Monte. Em fevereiro de 2010, a licença foi concedida com 40 condicionantes para reduzir os impactos sociais e ambientais. A grande maioria não foi cumprida no prazo, mas o Ibama seguiu liberando as licenças das fases seguintes de construção e operação da usina.]
BBC News Brasil – Isso foi amplamente noticiado na época.
Lula – Não houve nenhuma, nenhuma. Eu fui a Altamira fazer um discurso sobre Belo Monte. E fui mostrar o discurso que se fazia quando foi feita (a usina de) Itaipu (na fronteira com o Paraguai). Em 74, quando foi feita Itaipu, se dizia que Itaipú ia mudar o eixo da Terra. Se dizia que o lago de Itaipu não ia conseguir segurar a água, que a água ia vazar, que ia cair no Japão, sei lá.
Eu fui lá mostrar que a gente estava sendo muito responsável em Belo Monte, que tinha sido feito todos os acordos que foram possíveis fazer. A Belo Monte começou a ser construída depois que eu deixei o governo.
BBC News Brasil – Foi um projeto do senhor.
Lula –Era um projeto antigo. Belo Monte é um projeto de 40 anos.
BBC News Brasil – O senhor abraçou esse projeto.
Lula –Eu abracei não, eu queria fazer. E tenho orgulho de ter feito Belo Monte, porque esse país precisa de energia. E Belo Monte é uma hidrelétrica de meio fio, uma hidrelétrica que não tem lago que vai inundar área desnecessária. A cheia do lago é a cheia da enchente.
BBC News Brasil – Esse é apenas um dos impactos (causados pela construção de hidrelétricas). Altamira hoje, segundo o Atlas da Violência, é a segunda cidade em taxa de homicídios do país.
Lula – Mas você está botando a culpa em Belo Monte? Bota a culpa em quem governa.
BBC News Brasil – Quem estuda esse tema diz que o grande crescimento de população em Altamira, sem planejamento urbano, sem planejamento de aumento de segurança, etc, trouxe esse impacto para a cidade. Assim como para o desmatamento também. É o maior município em desmatamento do país.
Lula – Mas é assim no mundo inteiro, no Brasil. São Paulo virou o que virou porque muita gente foi para São Paulo por causa do êxodo rural. Se Altamira oferecia perspectiva de emprego, houve muita gente (indo para lá). Agora, para quê tem governo estadual e municipal? Para cuidar disso.
BBC News Brasil – A questão é que as licenças ambientais que foram dadas para Belo Monte impuseram condicionantes (para que os estágios da obra avançassem). Por exemplo, criação de delegacia, criação de saneamento, criação de postos de controle do desmatamento. E essas condicionantes não foram cumpridas nos prazos estabelecidos, e o Ibama continuou liberando as licenças.
Lula –Deixa eu te dizer uma coisa, eu participei de reuniões que impuseram todas as condicionantes. Quando nós fizemos as Olimpíadas no Rio de Janeiro, a gente colocava como condicionante, depois que terminasse as Olimpíadas, fazer com que todos os postos públicos construídos para as Olímpiadas fossem destinados ao povo. Eu tenho visto notícia que não tão sendo. Se alguma condicionante não foi cumprida em Belo Monte, é preciso saber quem está governando a cidade, o Estado, o Brasil, e fazer cumprir.
BBC News Brasil – A questão, presidente, é que as condicionantes eram exigências para a liberação das licenças pelo Ibama. O Ibama, que é um órgão federal, no governo Dilma, continuou liberando as licenças.
Lula – Não tente culpar a Dilma pelo que está ocorrendo em Belo Monte hoje. Cada um de nós é responsável pelo período que governou o país.
BBC News Brasil – O que ela fez no governo dela tem consequências hoje.
Lula – Se tem problema você conserta. Belo Monte era uma necessidade do país. Eu duvido que tenha um país no mundo que tivesse as condições de fazer uma hidrelétrica como Belo Monte que não fizesse. E alguns fariam ainda com lago, e nós resolvemos fazer sem lago, e um dia vamos pagar um preço, porque na hora que o Brasil estiver necessitando de energia e não tiver energia, vão dizer: por que não fez um lago em Belo Monte?
BBC News Brasil – O senhor sempre se disse orgulhoso por saber ler os desejos do povo. Na sua opinião, o que o povo quis dizer ao eleger Bolsonaro?
Lula – Eu acho que essa história está mal contada. Primeiro, o Bolsonaro foi eleito porque esse que vos fala foi impedido de ser candidato. O grande cabo eleitoral do Bolsonaro foi a minha condenação, e a decisão da Justiça Eleitoral (impedindo a candidatura de Lula por causa da Lei da Ficha Limpa).
Segundo, uma parte dos votos (do Bolsonaro) você sabe que foi à base do fake news, da maior campanha de mentira já conhecida no Brasil. Eu não sei por que (não fez), mas eu acho que o PT deveria ter feito uma briga para exigir uma apuração correta sobre a questão do fake news. O PT aceitou o resultado.
Diferentemente do Aécio (Neves, do PSDB), que não aceitou o resultado (da eleição em 2014) da Dilma, numa eleição legal, em que não teve fake news. Então, agora o seu Bolsonaro, ele só tem que governar. Ele ganhou para governar, ele governe.
Eu, como fui Presidente da República, não sou daqueles que fica torcendo para as pessoas que governam dar errado, porque quem paga o pato é o povo. O que eu quero é que ele resolva o problema do povo brasileiro. Porque estamos há um ano só ouvindo falar em corte e ajuste, corte e ajuste, corte e ajuste, e não se ouve falar em desenvolvimento, em emprego, em política industrial. Isso não existe. Então, eu não sei onde vai parar o país.
BBC News Brasil – Concretamente, o PT escolheu Fernando Haddad para disputar a eleição presidencial (após Lula ter sido impedido pela Justiça), e o PT foi derrotado. O senhor se arrepende de alguma forma desse cálculo político? Olhando para trás, acha que poderia ter adotado outra estratégia?
Lula – Posso te falar uma história? O PT teve uma votação extraordinária nas condições em que foram as eleições. Eu, quando vim para cá, eu poderia ter tomado uma outra decisão e não vir para cá [Lula já disse que poderia ter pedido asilo político em outro país], mas eu vim para cá. Eu me entreguei à Polícia Federal aqui, porque eu queria provar todas as safadezas que fizeram comigo, e vou provar, é uma questão de tempo.
Eu tinha muita clareza do ódio que estava tomando a sociedade brasileira. A sociedade foi instigada a ser antipolítica durante muito tempo. Isso aconteceu na Inglaterra com o Brexit (decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia). Então, eu acho que o PT não brigou, o Bolsonaro está eleito, e ele agora governe. Governe e faça as coisas acontecer.
O PT continua sendo o mais importante partido político da América Latina, o PT é o mais importante partido político do Brasil, e o PT sabe que o povo trabalhador espera muito do PT. A gente não tem que ficar chorando porque perdeu, a gente tem é que reconstruir a próxima vitória, e tentar tirar o ódio da cabeça das pessoas.
Porque eu comparo o governo Bolsonaro a uma torcida organizada. Ou seja, você tem um torcedor que é flamenguista, corintiano, que ele vai no estádio para torcer para o time, mas a torcida organizada fanática, ela não torce para o time, ela vai vaiar jogador, ela vai no centro de treinamento bater em jogador, bater em técnico, essa é a turma do Bolsonaro. E que continua fazendo discurso para essa gente.
BBC News Brasil – O senhor às vezes também não opta por fazer um discurso muito voltado para sua base mais fiel? O senhor há poucos meses disse que a facada, da qual o então candidato Bolsonaro foi vítima, não seria verdade. Gostaria de saber se o senhor genuinamente acredita que Bolsonaro não sofreu uma facada e no que o senhor baseia esse tipo de afirmação?
Lula – Não, eu não disse que não tinha tomado, eu disse que não acreditava (que Bolsonaro levou uma facada). Mas você garante a mim o direito da dúvida? Veja, eu tenho suspeitas (de que não ocorreu). Agora, se aconteceu, aconteceu.
BBC News Brasil – Assim como o presidente Jair Bolsonaro diz que tem suspeitas de que ONGs botam fogo na Amazônia e fala esse tipo de argumentação sem provas, o senhor acha que contribui para tornar o ambiente menos radical, menos tóxico de desinformação ao propalar suspeitas sem indícios de provas?
Lula –Eu falei com muita tranquilidade desde o dia que aconteceu aquilo, porque não vi sangue. O Bolsonaro deu uma entrevista assim que chegou no hospital. Ele foi internado, já tinha um senador fazendo uma entrevista.
BBC News Brasil – A entrevista (ao então senador Magno Malta) foi depois da cirurgia.
Lula – Eu te confesso que fiquei com muitas dúvidas, mas se você tem certeza, eu sou até capaz de ter a sua palavra como veracidade.
BBC News Brasil – Não é questão da minha palavra. Houve um atendimento na Santa Casa de Juiz de Fora, uma internação no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Sua suspeita se baseia no fato de que os médicos estão em um conluio para fazer uma encenação?
Lula –Não, não falei isso. Você acredita que houve a facada?
BBC News Brasil – Acredito.
Lula – Então acredite você, morreu o assunto.
BBC News Brasil – Não morreu o assunto pelo seguinte, presidente, o senhor é uma liderança muito importante. O que o senhor fala reverbera. Quando o senhor diz que tem suspeita sobre o ataque, o senhor não está justamente alimentando radicalismo, fake news?
Lula – Eu tinha suspeita até você me dar certeza. Então, você veio fazer entrevista comigo e você me convenceu, sabe, dizendo “eu sou prova de que ele tomou a facada”.
BBC News Brasil – Eu não sou a prova. Estou trazendo a questão sobre o efeito da sua fala.
Lula – Estou acreditando em você. Você pode passar para a história como a jornalista que convenceu um presidente que ele estava errado. E foi muito bom.
BBC News Brasil – Não é a minha intenção aqui. Presidente, hoje a esquerda tem muita dificuldade de fazer oposição, e a pauta central é o “Lula Livre”, é a luta pela sua liberdade. O senhor acha que é a melhor estratégia de oposição ter a centralidade da pauta “Lula Livre”? Ou deveria haver outras pautas centrais?
Lula –O que você acha que a oposição deveria fazer?
BBC News Brasil – Não sei, estou perguntado ao senhor.
Lula – É que você pergunta com uma condicionante. Você primeiro me coloca como uma pessoa que está atrapalhando a oposição a fazer oposição. Veja, eu sou de um partido político, e esse partido político trabalha a questão do “Lula Livre”. Obviamente, tem gente que acha que não deveria cuidar disso: “o Lula já foi condenado, deixa o Lula preso e tal”.
E sabe por que que o partido me defende? Porque o partido sabe que sou inocente, porque o partido sabe que o Moro é mentiroso, o partido sabe que o Dallagnol é mentiroso, o partido sabe que o TRF-4 me julgou sem ler o meu processo, o partido sabe que o Superior Tribunal de Justiça me julgou sem ter acesso ao inquérito.
Então, o que eu quero é provar minha inocência. E cabe ao meu partido, e não aos adversários, você não quer que o PSL faça campanha “Lula Livre”, né? O PSL faz campanha “Lula preso”. É o meu partido que tem que fazer.
E isso não impede que o meu partido tenha apresentado um programa no Congresso Nacional discutindo política econômica, discutindo emprego, discutindo política tributária. Acabou de apresentar.
Você deve ter acompanhado isso lá em Brasília, que meu partido é o que mais faz oposição e oposição coerente, que lutou contra a reforma da Previdência como ela está sendo feita, que lutou contra o desmonte da legislação trabalhista. O partido está fazendo oposição toda hora, 24 horas por dia, mas não impede que o partido me defenda.
BBC News Brasil – Outras lideranças da esquerda, de fora do PT, criticam essa centralidade da pauta “Lula Livre”…
Lula – Que lideranças? Eu não sou obrigado a convencer as lideranças a acreditar naquilo que o PT acredita. Cada liderança faça o que quiser. Sabe quantos anos o (líder e ex-presidente sul-africano Nelson) Mandela ficou preso até as pessoas se convencerem de que precisava soltar? 27 anos. Jesus Cristo carregou uma cruz, o povo gritando, na passagem dele, e ninguém defendeu ele. Eu tenho o PT que está me defendendo.
BBC News Brasil – Acontece agora a discussão sobre a sucessão da presidência do partido. Algumas pessoas dentro do PT já declararam publicamente, como o Washington Quaquá, presidente do partido no Rio de Janeiro, que consideram que o melhor seria o Fernando Haddad assumir o comando do PT, porque seria um nome com discurso mais moderado, que falaria para além da base mais fiel petista. E consideram que a deputada Gleisi Hoffmann (atual presidente) é o oposto disso. Por que a insistência no nome dela para presidente do PT, em vez de uma renovação?
Lula – Por que você dá tanto valor a uma fala do Quaquá, que quer o Haddad, e nenhum valor a minha fala, que quero a Gleisi? A Gleisi é a melhor pessoa nesse momento para ser a presidenta do PT.
BBC News Brasil – Por quê?
Lula – Porque ela é corajosa, porque ela defende o PT em qualquer situação, e porque ela provou que foi uma extraordinária presidente. Eu não estou dizendo para você, eu disse para o Haddad: “Você não deve ser candidato a presidente do PT. Você virou uma personalidade pública nesse país. Se você entrar na presidência do PT, você vai ficar com um carimbo na testa de PT e você não vai ter a amplitude que você pensa que vai ter”.
Quando eu, nas eleições de 1989 virei muito grande, sabe o que eu fiz? Criei um instituto, saí da presidência do PT, para poder ter relações com outras pessoas. Por isso que eu acho que o Haddad não pode ser presidente do PT, porque o Haddad teve uma representação maior do que o partido. Ele precisa conversar com essa sociedade além do PT que votou nele e ele não pode estar com um carimbo do PT. Ele tem que ser uma personalidade.
É simplesmente por isso que eu pedi para o Haddad não ser presidente e pedi para o partido que a Gleisi Hoffmann é a pessoa que tem mais competência hoje para ser presidente do partido.
BBC News Brasil – A entrevista é justamente para trazer as críticas para o senhor responder.
Lula – Eu sei. Você não tem veto, pergunta o que você quiser.
BBC News Brasil – Alguns críticos também dizem que o PT deixou de ter esferas democráticas, não faz eleição para a presidência do partido. Tudo passa pelo senhor. O senhor decide que não vai ser o Haddad, e vai ser a Gleisi. O senhor não fica como espécie de dono do PT, que decide tudo? Claro que o senhor tem muita visão política, mas as decisões não estão muito centralizadas nas suas mãos?
Lula – De vez em quando você vai ter que conversar com uns amigos meus, você só conversa com alguns inimigos [fala em tom de brincadeira]. Eu há muito tempo que não participo de reunião do PT, mas desde que o PT nasceu eu me considero petista como a unha com a carne. Eu tenho interesse pelas coisas do PT e, naquilo que eu sou consultado, eu tenho opinião.
Eu tenho opinião para defender o PT como maior partido de esquerda da América Latina, quiçá (do mundo), só não é do mundo por causa do Partido Comunista Chinês. Mas não tem nenhum partido similar ao PT. O partido é muito forte, é por isso que tem um ódio contra o PT. O PT não é odiado pelas coisas más que ele fez. É odiado pelas coisas boas. E toda vez que eu posso dar um palpite no PT, eu dou.
Quando houve o colégio eleitoral, eu era contra expulsar deputado do PT que furou o colégio eleitoral. Eu perdi, o PT expulsou. E eu me contentei. Eu era favorável que a gente tivesse no país o parlamentarismo. Quando chegou na Constituinte, o PT fez uma prévia interna, uma votação, mais de 80 mil pessoas votaram, e eu perdi, e eu acatei.
Então, no PT a gente perde e a gente ganha, porque o PT é um partido altamente democrático. Se eles quiserem tomar uma decisão, eles tomam uma decisão, eu não preciso nem ouvir, posso nem saber.
Entretanto, quando os companheiros do PT decidem mandar notícias para mim, é porque há uma relação de confiança entre eles e eu. E eu acho isso muito bom, porque eu sempre tive muita confiança no PT.
BBC News Brasil – O senhor está falando da força do PT. O partido conseguiu, mesmo desgastado, chegar ao segundo turno da eleição presidencial de 2018. Mas, por outro lado, o PT teve um encolhimento muito grande no número de prefeituras na eleição de 2016. O bom desempenho de 2018 também ficou muito localizado no Nordeste. Como será estratégia do PT para se recuperar disso? Como vão furar a bolha do antipetismo, por exemplo, mantendo na presidência uma pessoa com discurso mais radical?
Lula – A importância da democracia é a possibilidade dessa alternância de poder que ela permite. Em 1980, eu fui fazer greve contra a Margaret Thatcher [então primeira ministra britânica pelo Partido Conservador]. Na época, parecia que ela era invencível. E logo depois apareceu o Partido Trabalhista, e ganhou. Depois parecia que o Tony Blair (primeiro ministro do Partido Trabalhista) era invencível. Logo aparece outra pessoa e derrota ele [na realidade, Tony Blair decidiu não concorrer a um terceiro mandato e foi sucedido por Gordon Brown, também do Partido Trabalhista.] É assim a democracia.
O PT (em São Paulo) já ganhou com a Marta (Suplicy, ex-prefeita), já perdeu, já ganhou com o Haddad (também ex-prefeito), já perdeu. Mesmo na Presidência, um dia o PT tinha que perder. O que eu lamento é que não tenham deixado o PT disputar com sua força toda. O PT, esqueça a eleição de 2012, ela acabou, esqueça a de 2016, ela acabou. Vamos pensar na eleição de 2020. O PT precisa escolher um candidato, e disputar as eleições ou fazer aliança política. O PT é o único partido enraizado nas entranhas do povo brasileiro.
BBC News Brasil – Sobre as eleições municipais de 2020, uma reportagem da revista Veja indicou que o senhor defendeu uma aliança nacional com PSB, PDT, PCdoB e PSOL na qual o partido que tiver o candidato com mais chances de vitória receberia apoio dos demais. Isso é verdade? Como estão essas conversas para 2020?
Lula –Eu nunca dei entrevista para a Veja, e nunca acredito na revista Veja. A Veja eu considero um lixo.
BBC News Brasil – Eles ouviram interlocutores do senhor. Como está essa articulação entre os partidos?
Lula – Eu acho que o PT tem que fazer aliança política e o PT tem que trabalhar sabendo que alguns momentos a melhor opção não é a candidatura do PT, é a candidatura de outros partidos políticos. E o PT fazer aliança. Nós já cansamos de fazer. Nós já apoiamos outros candidatos em Porto Alegue, já apoiamos outro candidato em outras cidades. Não tem nenhum problema.
Em São Paulo, se o PT não tiver um candidato e algum partido aliado tiver um bom candidato, o PT tem que fazer aliança. E vale para (a eleição para) Presidente da República (em 2022). Se o PT tiver um partido que tem um candidato melhor do que o PT, por que não apoiar o candidato? Aliança não vale só quando o PT está na cabeça, vale quando os outros também podem estar na cabeça.
Agora, o que não pode é o PT aceitar a ideia das pessoas não gostarem do PT porque o PT é muito grande. Olha, que culpa tem o PT? O PT (nas disputas presidenciais) foi o segundo em 89, o segundo em 94, foi o segundo em 98, foi o primeiro em 2002, foi o primeiro em 2006, foi o primeiro em 2010, foi o primeiro em 2014, e seria o primeiro em 2018, mas foi o segundo outra vez.
Olha, que culpa tem o PT se, desde 1989, o PT está em primeiro ou segundo lugar em todas as pesquisas feitas no país em todas as disputas (presidenciais)? O PT, se você pegar as eleições estaduais, têm vários Estados em que o PT apoia candidato de outros partidos políticos. É assim. Agora, o PT é muito grande.
BBC News Brasil – Então, no próximo ano, o PT pode não ter candidato em São Paulo?
Lula – Pode, pode. O PT sabe o que eu penso. O PT tem muita gente em São Paulo, muita gente. Agora, é importante saber quem vão ser os adversários. Eu disse para o Haddad que ele não deveria ser candidato a prefeito de São Paulo, porque acho que ele saiu muito grande do processo eleitoral. Nós precisamos cuidar do Haddad para conflitos políticos maiores.
Acho que o PT tem que medir qual a chance que tem de construir aliança, qual a chance de sair sozinho. Não apenas em São Paulo. Tem que pensar no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais, em Pernambuco, no Brasil inteiro. E fazer aliança para mim não é um questão de princípio, é uma questão de conveniência política momentânea.
BBC News Brasil – O site The Intercept Brasil noticiou essa semana que procuradores da Lava Jato comentaram de forma desrespeitosa mortes de seus familiares em um grupo de conversa do Telegram. Um deles, a procuradora Jerusa Viecili, pediu desculpas ao senhor pelo Twitter.
Ela escreveu: “Errei. E minha consciência me leva a fazer o correto: pedir desculpas à pessoa diretamente afetada, o ex-presidente Lula”. O senhor aceita essas desculpas?
Lula – Eu penso que ela deveria pedir desculpas ao povo brasileiro, pelo mal que eles causaram aos milhões e milhões e milhões de brasileiros que perderam o emprego. Eu sou um homem muito maduro, não guardo mágoas. O fato de ela dizer que está arrependida, é muito bom a pessoa se arrepender. Uma coisa que no Brasil as pessoas perderam. No Brasil, a palavra desculpa parece que tinha desaparecido do dicionário.
Então, quando as pessoas começam a se arrepender das bobagens que fizeram é um bom sinal. Significa que a humanidade ainda tem chance de se recuperar.
Eu acho que esse pessoal da Lava Jato, essa força-tarefa, eles foram mordidos pela mosca azul. A pior coisa do planeta Terra que foi feito foi o pacto feito pela (Rede) Globo com a Lava Jato. Passem qualquer mentira, não importa, que a gente vai transformar tudo em verdade.
E a Globo é um dos meios de comunicação que disseminou o ódio nesse país desde 2013. O ódio não é de graça não. Então, o que eu fico pensando: se essa pessoa pediu desculpas, espero que outras pessoas peçam desculpas. Eu espero que um dia o Moro fale assim, “Ô presidente Lula…”, mesmo que eu já tiver morrido, não tem problema, ele vai dizer “… eu quero pedir desculpas porque eu fui um canalha no voto que eu dei no processo dele. Eu não fui juiz”.
O Dallagnol poderia dizer a mesma coisa: “Presidente Lula, aquele PowerPoint que eu fiz, aquela melancia, que eu apresentei na televisão, eu quero pedir desculpas, eu menti.”
BBC News Brasil – Mas o senhor aceita o pedido da procuradora?
Lula –Ela não fez para mim, ela fez para o Twitter. Como ela acusou sem pedir, ela fez o pedido de desculpas sem consultar, é um problema dela.
BBC News Brasil – O Supremo Tribunal Federal ainda vai decidir sobre a legalidade dos processos contra o senhor, a defesa aponta o que considera como uma série de abusos. Para além dessa discussão, eu gostaria que o senhor respondesse sobre alguns elementos concretos que indicam possíveis crimes ou desvios éticos que o senhor possa ter cometido.
Lula – Ah, me conta porque eu não sei. Que bom que você tenha.
BBC News Brasil – No caso do sítio de Atibaia, o senhor reconheceu em depoimento que por alguns anos foi o principal usuário da propriedade. E também ficou comprovado que houve obras pagas por empreiteiras. Por que as empresas pagaram essas obras?
Lula – Você sabe que eu ocupei o Palácio do Planalto por oito anos e nem por isso ele é meu. Eu ocupei a Granja do Torto por oito anos e nem por isso ele é meu.
BBC News Brasil – Empreiteiras não pagaram por obras…
Lula –Fizeram, fizeram. Se você for ver a reforma que houve no Palácio da Alvorada, a Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base) fez uma reforma para a União que eu agradeci de coração, porque aquilo estava esquecido. Então, deixa eu lhe falar. Eu não estou prestando depoimento, estou dando uma entrevista. O que eu deveria falar, eu já falei.
Eu comecei dizendo que o sítio não era meu, e comecei dizendo que não era meu porque o sítio não era meu. O sítio tem dono (Fernando Bittar, amigo de longa data de Lula), o dono pagou com cheque administrativo (a compra do sítio). Tudo isso está na mão dos procuradores, os procuradores inventaram história, inventaram história, até descobrir que teve reforma.
Eu fui conhecer o sítio dia 15 de janeiro (de 2011). Se o sítio não é meu e fizeram reforma, quem fez a reforma e o dono do sítio é que tem que explicar, não sou eu. Eu não posso ser condenando porque foi feito uma reforma numa coisa que não era minha.
Agora, eles começaram mentindo dizendo que o sítio era meu, eu depois que disse que o sítio não era meu, criaram a questão da reforma, e todo o objetivo deles, a obsessão deles aqui em Curitiba, era tentar envolver a Petrobras para trazer esse processo para cá, porque esse processo poderia ter sido julgado em São Paulo.
Eles fizeram com o sítio a mesma canalhice que fizeram com o apartamento (caso Tríplex do Guarujá). Eu estou dizendo que o apartamento não é meu, estou dizendo que o apartamento não é meu, eu não comprei o apartamento, eles sabem que eu não comprei. Eles inventaram uma relação do Léo Pinheiro com a Petrobras para trazer o caso para cá.
[Nota da redação: Pelo princípio constitucional do juiz natural, os dois processos deveriam ter sido julgados em São Paulo. No entanto, por autorização do Supremo, todos os casos da Operação Lava Jato que supostamente envolviam desvios da Petrobras foram direcionados para a 13ª vara de Curitiba, chefiada até novembro passado pelo ex-juiz Sergio Moro.]
BBC News Brasil – Ainda que obras de empreiteiras tenham sido feitas sem pagamento no Palácio do Planalto, essas obras ficaram como doação ao Estado brasileiro. No caso do processo de Atibaia, seriam obras custeadas por empreiteiras que ficaram como doação para um sítio que o ex-Presidente da República Lula frequentava constantemente. Há um diferença.
Lula – Olha, eu quando for na sua casa e tiver uma obra, não pense que eu vou perguntar quem fez a reforma.
BBC News Brasil – Eu não sou ex-Presidente da República.
Lula – Nem vou abrir sua geladeira. E pelo fato de eu ser ex-Presidente da República é que eles deveriam ter pensado diferente. Eu não era mais homem público, não tinha mais cargo. Eu vou ser ex-Presidente da República a vida inteira. Então, se eles querem me condenar por isso, eles que digam que é isso.
BBC News Brasil – O fato de o senhor ser ex-Presidente da República e ser a maior liderança da esquerda no Brasil não mantém o senhor com uma série de responsabilidades para a vida inteira?
Lula – Acho bom você dizer isso pros outros, que eu sou a maior liderança de esquerda do Brasil.
BBC News Brasil – Acho que não há dúvidas sobre isso.
Lula –Deixa eu te dizer uma coisa, eu fui presidente por oito anos, eu fui presidente do PT por treze anos, eu fui o deputado constituinte mais votado do Brasil. Eu fui o presidente de sindicato mais importante do Brasil. E eu duvido que em algum momento da minha história política alguém tenha encontrado um crime que eu tenha cometido.
Então, agora a minha situação é a seguinte: eu não sou um cara reto no meu comportamento porque eu sou ex-presidente. Eu sou assim porque dona Lindu (mãe de Lula), uma mulher que nasceu e morreu analfabeta, uma mulher que cuidou de 12 filhos, essa mulher, me deu educação. Então, eu tenho um comportamento reto. Quando eu era presidente, você nunca me viu jantando na casa de alguém, você nunca me viu num casamento, você nunca me viu num aniversário, porque foram oito anos de celibato meu dentro da Presidência.
E vou ser assim, eu sou assim, essa é a minha vida.
BBC News Brasil – Ontem, o STF tomou uma decisão importante ao anular a condenação do Aldemir Bendine (ex-presidente do Banco do Brasil) pelo ex-juiz Sergio Moro, por considerar que houve ilegalidade no processo. O senhor se sente mais esperançoso em relação aos seus recursos que serão analisados no Supremo?
Lula – Eu não vou ficar analisando comportamento da Suprema Corte. A única coisa que eu peço é o seguinte, eu tenho vários processos, as pessoas têm que condenar um ser humano com base nas provas. Se você não tiver prova, o ser humano é inocente. Eu tenho provado a minha inocência desde o primeiro processo.
Eu acho que a Suprema Corte precisa dar um freio de arrumação na casa, porque houve um momento em que o Moro, o Dallagnol e mais a equipe da força-tarefa pensavam que eram donos do Brasil. Eles ameaçaram a Suprema Corte, eles ameaçaram o nosso ministro da Suprema Corte (Teori Zavascki) que morreu, eles ameaçaram o (ministro do STF Edson) Fachin, eles ameaçaram a Câmara, eles ameaçaram o Senado, eles ameaçaram a Presidência. Eles qualquer coisa ameaçavam fazer greve de fome. Eles se acharam donos do mundo.
O que eu acho que a Suprema Corte tem que fazer? Tem que se debruçar sobre o processo (os casos da Lava Jato), tudo que foi certo, tudo que foi julgado corretamente, que houve investigação, que houve apuração e que provou que cometeu crime, tem que condenar. Agora, tudo aquilo que a Suprema Corte analisar e descobrir que houve falha (no processo), que a pessoa é inocente, que a pessoa foi acusada equivocadamente, tem que absolver. É só isso
BBC News Brasil – O senhor não acha que deve ser anulada toda a operação Lava Jato?
Lula – Não, eu acho que a operação Lava Jato tem coisas que foram verdade, tem pessoa que confessou. Se o cara confessou que roubou, o cara é ladrão. E é só pegar os delatores, porque ficou fácil roubar no Brasil. O cara rouba, vem aqui, delata quem roubou, fica com metade e tá livre? Só falta começar a colocar pulseira de ouro no pé das pessoas, pra pessoa colocar no testamento a pulseira de ouro.
Não, eu acho que tem que ter seriedade. Se o cidadão, Luiz Inácio Lula da Silva, cometeu um delito, e tem prova que ele cometeu um delito, não adianta o seu Lula falar grosso, ele tem que ser condenado e tem que ser punido como qualquer cidadão. Assim reza a nossa Constituição.
Mas se esse Luiz Inácio Lula da Silva, depois de todas as provas for inocente, humildemente, tem que ser inocentado. E é isso que eu espero deles.
BBC News Brasil – Presidente, faltam dez minutos (para o fim da entrevista). Tenho mais dois temas que eu queria abordar com o senhor. Agora, economia.
Lula – Essa era o tema mais importante, achei que você ia falar mais de economia.
BBC News Brasil – O senhor e outras lideranças do PT constantemente chamam atenção para o sofrimento dos brasileiros com a alta do desemprego. No entanto, o IBGE mostra que os anos de maior disparada das taxas de desemprego foram 2015 e 2016, período governado, na sua maioria, pela presidente Dilma Rousseff. Foram também os anos recentes de maior queda do PIB. Como que os senhores não se responsabilizam pelo cenário atual?
Lula – Presta atenção: dezembro de 2014, presidente Dilma Rousseff, o Brasil tinha o menor índice de desemprego da história desse país. O Brasil parecia a Dinamarca, parecia a Noruega, a Finlândia, de tão pouco que era o desemprego nesse país. Teve a eleição. A Dilma, na minha opinião, tinha cometido um equívoco. Entre 2011 e 2015, o companheiro Guido Mantega (ex-ministro da Fazenda) fez uma desoneração de R$ 540 bilhões de reais.
Nenhum empresário veio a público dizer isso, mas o governo fez uma desoneração de R$ 540 bilhões. Para quê? Para que as indústrias continuassem gerando emprego, e para que a Dilma continuasse podendo cumprir os compromissos da política social. Então, (isso era) dezembro de 2014. Olha o que aconteceu depois: na hora que você percebe que tem que fazer um ajuste, a Dilma percebeu, ela mandou uma medida provisória para acabar com a desoneração. O Congresso não aceitou. O Congresso elegeu no começo de 2015 quem? Eduardo Cunha para a presidência da Câmara.
Faça um paralelo: Fernando Henrique Cardoso e Dilma. Quando o Fernando Henrique Cardoso quebrou o Brasil duas vezes, em 2009 [Lula quis dizer 1999] ele mandou uma reforma. Ele tinha na presidência da Câmara o (então deputado Michel) Temer, que resolveu aprovar as reformas imediatamente. E o Brasil começou a sair da crise. A Dilma teve de presente o Eduardo Cunha como presidente. Que cada coisa que a Dilma mandava, ele triplicava. A Dilma mandava (proposta para) desonerar esse copo, ele desonerava tudo (reduzindo as receitas do governo).
Até (o setor de) comunicação, até a Globo acho que foi desonerada em alguma coisa. Então, na verdade, era uma agenda bomba todo dia contra a companheira Dilma, que não conseguiu implementar nenhuma mudança que ela queria fazer.
Se tinha desemprego em 2015, a Dilma sabia e ela começou a tentar propor a reforma, nenhuma reforma foi votada e de lá pra cá, derrubaram ela com base em uma mentira e só piorou. Eu, quando entrei no governo em 2002, a inflação estava quase 12%, tinha desemprego pacas, o Brasil devia US$ 30 bilhões ao FMI, eu não fiquei culpando o Fernando Henrique Cardoso, não.
BBC News Brasil – O senhor sempre falou em herança maldita.
Lula – Eu disse (que tinha) a herança maldita e fui trabalhar. E quando saí da Presidência da República o Brasil tinha gerado 22 milhões de empregos, nós tínhamos US$ 378 bilhões de reserva, e o Brasil era o país de maior credibilidade internacional. Então, é o seguinte, quando o cidadão ganha (a eleição)… Nós já temos quatro anos que cassaram a Dilma, já era para ter consertado esse país.
BBC News Brasil – O senhor falou em entrevista recente que defendeu que o PT apoiasse outro nome de dentro do PMDB na eleição para presidência da Câmara de 2015 para tentar derrubar a candidatura do Eduardo Cunha. O PT decidiu lançar seu próprio candidato e perdeu. Não houve então erros do PT que contribuíram para o que aconteceu?
Lula – Mas quantos erros você cometeu essa semana na sua vida, eu cometi na minha. Eu fui alertar o PT que era humanamente impossível, matematicamente impossível o PT disputar a presidência da Câmara em 2015. Fui numa reunião com vários deputados do PT, coloquei meus argumentos: “se vocês quiserem derrotar o Cunha, a única coisa que podem fazer é pegar alguém do PMDB e lançar como candidato para derrotar o Cunha”.
No PT, tinha companheiro que achava que não. Que achava que nós vamos ganhar. Eu tinha noção que havia já um antipetismo dentro da Câmara, e que era impossível o PT ganhar. E o que aconteceu? Deu o que eu pensei que ia dar. Agora, também não vou ficar dizendo: “tá vendo, eu tava certo, tá vendo”. Não, perdeu, perdeu, paciência. Agora, mesmo sendo o Cunha, o Presidente da República precisa se relacionar com o outro poder.
Eu estava no Suriname quando o PT perdeu a presidência da Câmara (em 2005) para aquele companheiro de Pernambuco, o Severino Cavalcante (PP-PE). O nosso candidato era o (Luiz Eduardo) Greenhalgh (PT-SP), o Virgílio (Guimarães, também do PT, que se lançou como candidato avulso) disputou com o Greenhalgh. O Greenhalgh ganhou no primeiro turno com não sei quantos votos e imaginava que ia dobrar no segundo turno.
No segundo turno, nem os votos do Virgílio votaram no companheiro Greenhalgh. Ele perdeu para o Severino. Eu levantei de manhã tinha um bilhete na porta do meu quarto assim: “Presidente, Severino ganhou as eleições”.
Você acha que eu ia ficar com raiva? Não, peguei o telefone e liguei pro Severino: “Companheiro Severino. Estou no Suriname e estou regressando ao Brasil, quando eu chegar o primeiro café da manhã é com você”.
Olha, se o Eduardo Cunha ganhou as eleições, o PT deveria ter estabelecido uma relação sabendo que ele é um outro poder. A gente não pode fazer do nosso comportamento na política apenas uma questão de princípio. E não era só a Dilma que tinha que fazer, ela tinha a coordenação política. Ela tinha a Casa Civil (comandada na época por Aloizio Mercadante). Se nós erramos nesse trato, nós pagamos o preço, paciência.
BBC News Brasil – Presidente, última pergunta, faltam poucos minutos para terminar e eu queria falar de Venezuela com o senhor.
Lula – Pede uma concessão para ele de um minuto, p*! [o presidente se refere em tom de brincadeira ao chefe de escolta e custódia da superintendência da PF, Jorge Chastalo, que acompanha a entrevista.]
BBC News Brasil – Presidente, o senhor falou recentemente em entrevista o seguinte sobre Venezuela: “Não é que eu ache que o (presidente Nicolas) Maduro está fazendo a coisa certa. O povo da Venezuela é que tem que tomar conta do Maduro”. No entanto, o povo da Venezuela parece estar em frangalhos, passando fome, fugindo do país aos milhões. Como o povo venezuelano pode resolver isso sozinho? O senhor e outros líderes de esquerda importantes não deveriam pressionar pela realização de uma eleição chancelada por organizações multilaterais para que haja uma evolução da situação da Venezuela?
Lula –Você é muito nova, um dia você pode virar presidenta também. Então, eu vou te dizer como se deve comportar um presidente.
Eu, em janeiro de 2003, eu fui à posse do presidente do Equador. Na época, era um coronel do Exército chamado (Lucio) Gutiérrez, e nessa reunião o (ex-presidente da Venezuela Hugo) Chávez estava num conflito com os Estados Unidos. Eu chamei o Chávez para uma reunião e propus construir uma coisa chamada “Grupo de Amigos da Venezuela”, um grupo de pessoas que pudesse conversar e tentar encontrar uma solução com a oposição. E eu sugeri ao Chávez que entrassem os Estados Unidos e à Espanha.
A Espanha primeiro, porque o (José María) Aznar tinha sido o presidente da Espanha que tinha reconhecido o golpista da Venezuela [Chávez acusava Aznar de apoiar a tentativa de golpe contra ele 2002, o que o espanhol negava]. E o Bush, porque o Chávez falava para todo mundo que o Bush que tinha dado o golpe na Venezuela [Lula também se refere ao levante de 2002].
O Fidel Castro ficou muito nervoso e achou que estávamos entregando a Venezuela para os Estados Unidos. Eu tive uma reunião com o Fidel Castro e mostrei que só era possível ter um acordo se tivesse uma mesa de negociação com as pessoas que o Chávez não gostasse, mas que a oposição gostasse. Por isso, os Estados Unidos, e por isso, a Espanha.
O resultado é que nós tivemos um belo acordo. Os americanos colocaram o Colin Powell (então Secretário de Estado dos EUA) para participar das negociações, o Celso Amorim (chanceler do governo Lula) participou pelo lado brasileiro, e o dado concreto é que nós fizemos uma paz tranquila na Venezuela.
BBC News Brasil – O senhor concorda então que tem que ter participação de autores externos? Que não é só o povo venezuelano que vai conseguir resolver a crise?
Lula – Sabe o que eu fico chateado, é que uma pessoa culta como você, é capaz de ver todos os erros do Maduro e não fala nada do embargo americano. O embargo americano chama-se genocídio!
Porque quando um país ganha uma batalha numa guerra, ela matou soldado. Mas quando você faz embargo num país como os americanos estão fazendo em Cuba há 60 anos, estão fazendo agora (na Venezuela), fizeram no Irã, você está matando crianças, mulheres e velhos.
É preciso que os americanos parem com essa história de embargo e de ameaçar o mundo inteiro. E eu acho que quem tem que resolver o problema da Venezuela, é o povo da Venezuela numa eleição. Agora, não dá para a estupidez de apoiar um tal de Guaidó [Juan Guaidó é presidente da Assembleia Nacional da Venezuela e se autoproclamou presidente do país, com apoio de diversas nações, inclusive o Brasil.]
Por Deus do céu, se essa moda pega, ninguém vai respeitar mais eleição em lugar nenhum.
Imagina os Estados Unidos apoiando (qualquer um) como o Guaidó. Um candidato que mundo achou que deveria ser candidato por quê? Ele não disputou as eleições.
BBC News Brasil – Ele é presidente da Assembleia Nacional da Venezuela.
Lula – Mas não era Presidente da República. Tem que parar com isso. Eu achei uma pequenez do mundo, inclusive do Brasil. O Brasil é um país que pode ser gestor da paz aqui na América Latina, se tiver gente que queira paz. O Brasil chegou a ter um superávit comercial de quase US$ 5 bilhões com a Venezuela. O Brasil tem que ter um carinho muito grande com a Venezuela.
Eu passei muito tempo de minha vida telefonando pro Chávez e o (Álvaro) Uribe (ex-presidente colombiano) para manter a paz entre a Colômbia e Venezuela. Só para você ter ideia, a Condoleezza Rice (ex-Secretária de Estado dos EUA) fez uma crítica no jornal Miami Herald contra o Chávez, e o Chávez foi para a rua fazer uma passeata contra os americanos, eu liguei pro Bush.
Liguei e falei: “Bush, se você quer que o Chávez não faça passeata contra você, manda a sua secretária parar de escrever bobagem contra ele nos jornais americanos”. Sabe, pega o telefone, liga e conversa pessoalmente.
A maioria das brigas é por falta de conversa. O papel do Bolsonaro não era ficar falando a quantidade de asneira que ele falou ou o seu ministro (das Relações Exteriores, Ernesto Araújo), era ter pegado o telefone e ter ido falar com o Maduro. Tem coisa para dizer, diga na cara do presidente. Não fica brigando da forma mesquinha, pequena, medíocre que foi feita.
BBC News Brasil – Infelizmente nosso tempo acabou.
Lula – Porque você quer, eu estou aqui, eu não estou nem vendo eles [Lula brinca com os agentes da PF e provoca risos entre os presentes.]
BBC News Brasil – A Polícia Federal fixou este horário.
Lula – Eles não vão te prender. Eles podem me tirar daqui (da sala de entrevista). Mas deixa eu falar uma coisa, o Brasil tem um papel muito importante na América do Sul, na África. O Brasil tem que tomar cuidado, porque o Brasil era muito respeitado. Agora, quando você tem um governante que não se respeita, também ninguém respeita. Política é feita por seres humanos. Você conversa, dialoga.
O Brasil tem que perceber que a Venezuela é importante. Essa bobagem que o Bolsonaro acredita, na bondade dos Estados Unidos. Não tem um momento histórico em que os Estados Unidos fizeram um gesto de bondade para o Brasil. Não tem um, desde a Independência americana. O Brasil tem que acreditar é na sua força, é no seu povo, é na sua soberania, é na sua criatividade, e não ficar achando que alguém vai resolver o problema da nossa incompetência. Eu acho que o Bolsonaro tem que parar de falar bobagem e começar a governar esse país.
BBC News Brasil – Presidente, obrigada por ter recebido a BBC para essa conversa. Espero que tenhamos outras oportunidades no futuro de fazer novas entrevistas com o senhor.
Lula – Olha, eu estou sempre à disposição. Espero que você tenha feito todas as perguntas que você queria fazer, e desculpa se não lhe respondi de agrado todas as suas perguntas. Muito obrigado.
Neymar será jogador do Barcelona. Para o canal italiano “Sky Sport”, a novela acabou nesta quinta-feiracom o acordo entre o clube catalão, Paris Saint-Germain e o craque brasileiro. A rádio francesa “RMC Sport”, porém, garantiu que o PSG negou formalmente a informação.
Através do jornalista Gianluca Di Marzio, o veículo italiano informou nas redes sociais que a assinatura de contrato acontecerá nas próximas horas para que Neymar volte a vestir a camisa do Barça, onde atuou entre 2013 e 2017.
Segundo Di Marzio, estarão envolvidos na negociação o zagueiro francês Todibo (contratado em janeiro ao Toulouse) e o meia Rakitic enquanto as partes aguardam também o ok de Dembélé. A última informação era a de que o atacante relutava em deixar o Barcelona. Mas uma possível negativa não afetaria a transação.
Reunião em Mônaco
Os dirigentes dos principais clubes europeus estão reunidos em Mônaco nesta quinta, ondeserá realizado o sorteio da fase de grupos da Liga dos Campeões, assim como a cerimônia de premiação dos melhores da última temporada. Presidente do Barcelona, Josep María Bartomeu é um dos presentes.
A imprensa espanhola garante que Bartomeu aproveitou a ocasião para encontrar-se com Nasser Al-Khelaifi, dono do Paris Saint-Germain, para uma última investida por Neymar. A rádio francesa “RMC Sport” publicou na quarta que o PSG rejeitou a oferta mais recente do clube catalão. Mas os termos avançaram nas primeiras horas do dia e, de acordo com a “Sky Sport”, está tudo enfim resolvido.
A Comissão de Meio Ambiente (CMA) se reuniu para analisar uma pauta com 13 itens, dentre eles o PL 2.130 de 2019, que estabelece limites de emissão sonora para fogos de artifício. A matéria veio da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) e ainda precisa ser votada pelo Plenário. As informações com a repórter da Rádio Senado, Raquel Teixeira.