“Meus filhos chegavam em casa [após a aula] sujos e cheirando a fezes e urina. Até que apareceram hematomas nas bochechas, nos braços, no peito, nas pernas e no pescoço deles. Ninguém na escola sabia me dizer o que estava acontecendo.”
O relato acima é de Jussara*, mãe de dois adolescentes autistas, de 14 e 17 anos, que estudavam em uma instituição específica para pessoas com o transtorno, na zona sul de São Paulo. Em abril de 2022, além de apresentarem esses ferimentos, os meninos também passaram a ficar mais agitados, nervosos e ansiosos, conta a mãe.
Esse foi apenas um dos episódios que levaram familiares de alunos a suspeitarem da prática de maus-tratos na Gaia Educa TEA, escola privada que era credenciada à Secretaria Estadual de Educação (Seduc-SP) até o início deste ano.
Ao todo, 15 pais e mães [leia mais histórias nesta reportagem] procuraram a Defensoria Pública do Estado de São Paulo para buscar ajuda. Parte deles também registrou boletins de ocorrência.
Jorge dos Santos, um dos sócios-administradores da Gaia, disse ao g1 que os relatos são apenas “indícios”, porque são “crianças com deficiência severa; é difícil de saber se foi alguém que causou ou se elas mesmas que causaram [as lesões]”. “Os profissionais da escola eram capacitados, e os nomes trazidos pelos pais [nas denúncias] foram afastados das atividades com os alunos”, afirmou.
Abaixo, veja os últimos desdobramentos do caso:
- As investigações ainda estão em curso e correm em sigilo, tanto na esfera administrativa (por meio de sindicância na Seduc-SP) quanto na criminal (na Delegacia de Polícia da Pessoa com Deficiência).
- Em fevereiro de 2023, após uma apuração preliminar, a Seduc descredenciou a Gaia Educa TEA.
- Desde então, dos 89 alunos do colégio, cerca de 70 ainda aguardam uma vaga em outra instituição de educação especial ligada ao governo e próxima de suas casas.
- Parte dos estudantes foi direcionada a uma escola que está em processo de credenciamento e que, portanto, ainda não aceita as matrículas.
- A Defensoria Pública do Estado de São Paulo enviou, em 26 de maio de 2023, uma recomendação à Secretaria de Educação, para que os alunos sejam urgentemente matriculados em outras instituições credenciadas.
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Em casa e sem escola, adolescentes autistas têm mais surtos
Aos 16 anos, o filho de Mônica* está há 6 meses sem aula, lidando com uma quebra de rotina que, para pessoas com autismo, pode levar a surtos nervosos. “Essa mudança gerou compulsão alimentar, porque ele come mais quando está em casa, e crises agressivas que ele nunca teve”, diz a mãe.
Ao g1, a Seduc-SP disse que, em reunião com os pais dos jovens, ficou decidido que eles aguardariam a aprovação de novas instituições. Segundo o órgão, “os próprios responsáveis rejeitaram a oportunidade de efetuar matrícula em uma escola pública” comum (em que ficariam junto com alunos sem deficiência, com apoio especial no contraturno).
Renata Tibyriçá, defensora pública e professora de direito das pessoas com deficiência, explica que a situação é uma exceção e que transferir os alunos para um colégio comum não seria aceitável.
Veja abaixo outros dois relatos de mães de ex-alunos da Gaia:
‘Se ele ouve falar em escola, entra em desespero’
Sandra*, mãe de Felipe*, de 14 anos, afirma que, em 24 de agosto de 2022, seu filho saiu da escola desestabilizado, chorando muito.
No dia seguinte, Sandra marcou uma reunião com a direção do colégio. Segundo ela, ouviu como resposta: “Seu filho bate em professor, aí, quando a gente revida, você acha ruim? Aproveite e tire seu filho daqui.”
No dia 26, segundo a mãe do aluno, a funcionária da escola pediu desculpas, por telefone, e garantiu que o auxiliar seria demitido.
Ao g1, Jorge dos Santos, sócio-administrador da Gaia, diz que ouviu tanto as famílias dos alunos quanto os funcionários envolvidos nos relatos. De acordo com ele, esses trabalhadores foram afastados e ficaram sem contato com os alunos, até que as investigações fossem concluídas.
Até a última atualização desta reportagem, Felipe ainda estava sem aula, aguardando o credenciamento de uma nova instituição especial.
“Se ele ouve falar em escola, entra em desespero. Não consegue fazer mais nada sem minha presença. É como se estivesse sempre com medo, sem confiança. Antes, ele fazia tudo sozinho”, conta Sandra.
‘Fui a cinco psiquiatras para entender o que estava acontecendo’
Carol*, mãe de Luan*, de 14 anos, conta que o garoto sempre foi muito tranquilo. Até que, em setembro de 2022, mudou de comportamento: começou a puxar o cabelo das pessoas e a segurá-las com força.
“Fui a cinco psiquiatras para entender o que estava acontecendo”, diz Carol. “Eu ligava para a escola e perguntava se ele realmente tinha condições de ficar lá.”
No fim de 2022, Luan voltou da Gaia com arranhões no pescoço e no braço, conta a mãe do menino. Após conversar com outras mães de alunos e ouvir relatos semelhantes (de marcas no corpo e mudanças de comportamento), Carol procurou a diretoria de ensino, fez um exame de corpo de delito e registrou um boletim de ocorrência na delegacia.
Até a última atualização da reportagem, a família ainda aguardava o credenciamento da nova escola de Luan.
“Queria um lugar bom e especializado, com pessoas decentes e currículo adequado. Eu não aguento mais. Preciso de justiça.”


