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‘Influencers do lixo’: os brasileiros que fazem sucesso mostrando o que americanos jogam fora

Influencers do lixo brasileiros têm ganhado milhares de seguidores ao mostrar, nas redes sociais, o que encontram em caçambas nos Estados Unidos. A prática é conhecida como dumpster diving, expressão em inglês usada para descrever pessoas que vasculham lixeiras em busca de produtos descartados, mas ainda em boas condições de uso.

O fenômeno chama atenção porque mistura curiosidade, consumo, desperdício e sobrevivência. Em vídeos publicados no YouTube, Instagram e Facebook, brasileiros mostram maquiagens, bolsas, objetos de decoração, roupas de cama, móveis, alimentos e até itens ainda embalados que foram jogados fora por lojas, supermercados ou moradores.

Influencers do lixo mostram produtos descartados por americanos em caçambas nos Estados Unidos
Brasileiros nos Estados Unidos viralizam ao mostrar produtos encontrados em caçambas.

Influencers do lixo viralizam entre brasileiros

Um dos exemplos citados é o da youtuber Adeline Camargo, brasileira que mora nos Estados Unidos e se tornou referência em vídeos de dumpster diving. Em um encontro com fãs no Parque Villa Lobos, em São Paulo, seguidores fizeram fila para vê-la de perto e participar de sorteios com produtos encontrados em caçambas.

A popularidade desses conteúdos vem da surpresa. Para muitos brasileiros, é difícil acreditar que produtos aparentemente novos sejam descartados. Essa mistura de espanto e fascínio ajuda a explicar por que os influencers do lixo conseguem tanta audiência nas plataformas digitais.

O que aparece nos vídeos

  • Produtos novos: maquiagens, bolsas, decoração e itens ainda embalados;
  • Móveis e casa: sofás, mesas, edredons, lençóis, fronhas e travesseiros;
  • Alimentos: produtos de mercados que ainda podem estar próprios para consumo;
  • Flagras: vídeos em que funcionários ou policiais abordam os brasileiros;
  • Reaproveitamento: parte dos itens é usada, vendida ou doada para outras famílias.

Dumpster diving mistura curiosidade e crítica ao desperdício

A capixaba Alessandra Gomes, que vive em Massachusetts, também grava vídeos mostrando o que encontra em lixeiras. Ela conta que muitos brasileiros ficam curiosos porque veem o descarte americano como um desperdício difícil de entender.

Segundo Alessandra, há dois tipos de público: quem se revolta com a cultura do consumo e do descarte e quem fica fascinado com os produtos encontrados, chegando a desejar imigrar para fazer o mesmo. Essa reação ajuda a transformar o lixo em conteúdo com forte apelo nas redes.

Prática pode entrar em zona cinzenta legal

Nos Estados Unidos, o dumpster diving não é necessariamente ilegal de forma geral, mas pode entrar em uma zona cinzenta. Em 1988, no caso conhecido como California contra Greenwood, a Suprema Corte americana decidiu que não há expectativa de privacidade no lixo deixado na calçada.

No entanto, regras estaduais e municipais podem mudar o cenário. A prática pode ser considerada ilegal se envolver invasão de propriedade privada, lixeira trancada, placa proibindo acesso ou entrada em áreas restritas. Também pode haver questionamentos por incômodo público ou risco à segurança.

Onde está o risco legal

Propriedade privada

Entrar sem autorização pode gerar acusação de invasão.

Lixeira trancada

Cadeados, placas e áreas restritas podem mudar a interpretação legal.

Abordagens

Funcionários, lojistas ou policiais podem pedir que a pessoa saia do local.

Brasileiros relatam abordagens durante gravações

Vídeos em que brasileiros são “pegos no flagra” costumam gerar muita audiência. Em alguns casos, funcionários de lojas pedem que os criadores deixem o local. Em outros, permitem que continuem. Também há relatos de abordagem policial.

André da Silva, brasileiro que vive em Rhode Island há mais de duas décadas, afirma já ter sido abordado pela polícia algumas vezes. Segundo ele, em geral, os agentes perguntam o que está fazendo e se surpreendem com os produtos encontrados nas caçambas.

Influencers do lixo também revelam consumo excessivo

O sucesso dos influencers do lixo expõe uma contradição da sociedade de consumo. Produtos descartados por estarem fora de temporada, fora de estoque ou próximos da validade ainda podem ter uso. Para o sociólogo Jeff Ferrell, estudioso do tema, esse descarte faz parte de uma economia baseada na produção e no consumo constantes.

Ferrell, professor emérito da Universidade Cristã do Texas, pesquisa o fenômeno há décadas e também pratica o dumpster diving. Segundo ele, cada mudança de moda, tecnologia ou coleção pode gerar uma grande quantidade de resíduos ainda úteis.

Influencers do lixo encontram objetos descartados em bom estado nos Estados Unidos
Parte dos criadores mostra móveis, roupas de cama e objetos descartados por lojas e moradores.

Alimentos descartados chocam famílias brasileiras

Além de roupas, móveis e itens de decoração, os alimentos chamam atenção. Alessandra afirma que encontra muita comida ainda boa para consumo em caçambas de mercados. Algumas mercadorias passaram da data indicada, mas, segundo orientações do Serviço de Inspeção e Segurança Alimentar dos Estados Unidos, essas datas nem sempre indicam risco imediato à segurança, exceto no caso de fórmulas infantis.

Esse ponto costuma causar forte reação no público. Para muitos brasileiros, ver alimentos descartados em grande volume evidencia o contraste entre desperdício, consumo e necessidade de reaproveitamento.

Conteúdo também vira renda extra

Alguns criadores conseguem transformar a prática em renda. Alessandra afirma que a atividade pode render de US$ 200 a US$ 300 por mês com a venda de itens encontrados. A audiência dos vídeos também pode gerar mais algum dinheiro nas plataformas.

Além da venda, parte dos produtos é usada pela própria família ou doada a vizinhos e famílias de imigrantes. Para quem vive nos Estados Unidos com orçamento apertado, o reaproveitamento pode representar economia significativa.

Por que o público acompanha

  • Surpresa: muitos itens parecem novos ou em ótimo estado;
  • Indignação: o descarte revela desperdício em grande escala;
  • Curiosidade: cada vídeo funciona como uma caça ao tesouro;
  • Identificação: brasileiros acompanham conterrâneos vivendo nos EUA;
  • Utilidade: alguns veem a prática como forma de economizar ou ajudar outras pessoas.

É lixo ou luxo?

A expressão “é lixo ou luxo?” resume bem o apelo desses vídeos. Um item descartado por uma loja pode parecer sem valor para o mercado, mas ainda ser útil para outra pessoa. Essa diferença de percepção sustenta boa parte do sucesso do conteúdo.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam que a prática exige cuidado. Vasculhar lixeiras pode envolver riscos legais, de saúde e de segurança. Além disso, deixar lixo espalhado ou entrar em áreas proibidas pode prejudicar outros praticantes e aumentar a hostilidade de lojas e moradores.

Influencers do lixo transformam descarte em audiência

O crescimento dos influencers do lixo mostra como as redes sociais conseguem transformar uma prática marginal em entretenimento digital. O que antes era feito de forma discreta por necessidade, ideologia ou reaproveitamento agora também virou espetáculo, com suspense, reação do público e monetização.

Para Jeff Ferrell, porém, há uma ironia nesse sucesso. Segundo ele, um bom praticante de dumpster diving costuma ser discreto e evita chamar atenção para si. Nas redes, o caminho é o oposto: quanto mais impressionante o achado, maior a chance de viralizar.

Fenômeno expõe contraste entre descarte e necessidade

Os vídeos dos influencers do lixo revelam mais do que curiosidades sobre o cotidiano americano. Eles mostram como o excesso de consumo pode gerar desperdício, enquanto outras pessoas veem valor, utilidade e até sustento em produtos descartados.

Entre crítica social, oportunidade de renda e entretenimento, os brasileiros que mostram o que os americanos jogam fora transformaram caçambas em palco digital. O sucesso desses conteúdos também levanta uma pergunta incômoda: quanto do que é tratado como lixo ainda poderia ter uma segunda vida?

Mais informações sobre segurança alimentar e datas de validade nos Estados Unidos podem ser consultadas no portal oficial do Serviço de Inspeção e Segurança Alimentar dos EUA.

Fonte da notícia:
BBC News Brasil

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