O Brasil prepara para dezembro seu primeiro grande leilão de baterias voltado à contratação de sistemas de armazenamento de energia. Antes da disputa, a Empresa de Pesquisa Energética recebeu 6.091 projetos cadastrados, que somam 296.807 MW de potência.
Os números mostram forte interesse do mercado, mas exigem cautela: 6.091 projetos cadastrados não significam 6.091 projetos contratados, aprovados ou que serão construídos. Da mesma forma, os 296.807 MW correspondem à potência cadastrada e não a capacidade já contratada no leilão de baterias.
Leilão de baterias vai contratar potência, não “vento estocado”
Baterias não armazenam vento. O vento movimenta as pás de uma turbina, o gerador produz eletricidade e o sistema de baterias recebe essa energia. Ela é conservada em forma química e depois devolvida à rede elétrica quando necessário.
Essa é a lógica dos sistemas BESS. No leilão de baterias, o objetivo não é apenas comprar equipamentos, mas contratar disponibilidade de potência para resposta ao comando do Operador Nacional do Sistema.
“Estocar vento” virou meme, mas o desafio energético é real
Em 2015, a então presidente Dilma Rousseff usou a expressão “estocar vento” ao discutir fontes renováveis. A formulação era tecnicamente imprecisa e virou meme. Ela não deve ser apresentada como previsão das baterias nem como uma afirmação cientificamente correta.
O problema por trás da expressão, porém, existe: solar e eólica variam conforme luz e condições meteorológicas. Em 2015 já havia armazenamento conectado à rede; o que mudou desde então foi a escala, com queda de custos, avanço da eletrônica e crescimento das fontes renováveis.
6.091 projetos foram cadastrados para o leilão de baterias
A EPE registrou 6.091 projetos, com 296.807 MW de potência cadastrada. O órgão classificou o volume como recorde de participação em certames do setor elétrico brasileiro.
O cadastramento é apenas uma etapa do processo. Os empreendimentos ainda passam por habilitação e competição antes de eventual contratação. Por isso, o interesse registrado para o leilão de baterias não permite somar toda essa potência como capacidade futura garantida.
Dois certames estão previstos para dezembro
A audiência pública da Aneel de 1º de setembro discutiu editais e contratos. As consultas públicas seguem abertas até 14 de setembro, antes da consolidação das regras do leilão de baterias.
O Armazenamento Nacional está previsto para 2 de dezembro e exige baterias fabricadas no Brasil. O Armazenamento Geral está previsto para 4 de dezembro e não traz a mesma exigência. Os contratos terão duração de 15 anos, com início do suprimento em 1º de agosto de 2028.
Pelas regras em consulta, os sistemas precisam ter pelo menos 30 MW, entregar potência por quatro horas, aceitar até dois acionamentos diários e recompor a carga em até seis horas. A lista de fornecedores credenciados pelo BNDES não representa vitória antecipada no leilão de baterias.
Baterias dão flexibilidade, mas não resolvem todos os gargalos
O sistema elétrico já enfrenta cortes de geração solar e eólica associados a restrições operacionais ou de transmissão. As baterias podem aproveitar excedentes e entregar potência em outro horário, aumentando a flexibilidade da operação.
Isso não significa que o leilão de baterias eliminará sozinho o curtailment ou substituirá investimentos em transmissão. Também não existe, nas regras apresentadas, garantia automática de redução da conta de luz do consumidor.
Rondônia integra o sistema, mas não tem projeto confirmado
Rondônia participa do Sistema Interligado Nacional. Mais reserva de potência e flexibilidade podem produzir efeitos sistêmicos também no sistema Acre–Rondônia, especialmente em uma rede que combina diferentes fontes e longas estruturas de transmissão.
Até a apuração de origem, nenhum dos 6.091 projetos havia sido confirmado especificamente para Rondônia e não havia anúncio de bateria de grande porte para Porto Velho. O leilão de baterias tem, por enquanto, um recorte nacional, não um investimento estadual já definido.






