Um novo relatório internacional sobre os peixes do rio Madeira recolocou Rondônia no debate sobre conectividade dos rios, migração de espécies e transformação da pesca. O documento usa o Madeira como exemplo ao discutir barreiras enfrentadas pela dourada e mudanças ligadas à antiga Cachoeira do Teotônio, em Porto Velho.
A quarta edição de Peixes Esquecidos da Amazônia, liderada pela The Nature Conservancy, reúne e atualiza evidências sobre mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce na Bacia Amazônica. Esse número não representa espécies descobertas agora: trata-se de conhecimento científico e ecológico já acumulado sobre a biodiversidade regional.
Peixes do rio Madeira entram em debate sobre conectividade
O relatório relaciona rios saudáveis à alimentação, renda e cultura na Amazônia. Entre as pressões citadas estão barragens, fragmentação, poluição, sobrepesca e mudanças climáticas.
Em Rondônia, os peixes do rio Madeira ganham relevância porque espécies migradoras dependem da conexão entre diferentes trechos. O relatório aponta proteção de rios livres, recuperação da conectividade, qualidade da água e manejo comunitário.
Dourada percorre grandes distâncias na Bacia Amazônica
A dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) aparece como uma das espécies de destaque por realizar migrações de milhares de quilômetros ao longo do ciclo de vida. A conectividade entre os rios é, portanto, parte central da dinâmica dessa espécie.
O relatório e a cobertura associada ao tema relacionam as barragens do Madeira a mudanças nas antigas rotas migratórias. Isso não significa que todos os peixes do rio Madeira tenham desaparecido, mas ajuda a explicar por que a perda de conectividade é analisada como pressão sobre espécies que dependem de deslocamentos extensos.
Estudo mediu queda nos desembarques pesqueiros
Um estudo publicado em 2025 na revista River Research and Applications analisou desembarques entre 2000 e 2019 em Guajará-Mirim, a montante das barragens, e Humaitá, a jusante.
No recorte estudado a montante, os desembarques totais caíram 60,76%. Para migradores de longa distância, a redução foi de 81,45%; para migradores regionais, de 85,50%. A dourada apresentou queda de 91,01% nos desembarques analisados.
Esse último percentual precisa ser interpretado com precisão: os 91,01% se referem aos desembarques de dourada registrados no estudo. O dado não significa que 91% da população total da espécie tenha desaparecido nem permite transformar os resultados sobre os peixes do rio Madeira em uma estimativa de extinção populacional.
Pesca tradicional do Teotônio foi profundamente transformada
Pesquisas sobre a antiga Cachoeira do Teotônio descrevem uma pesca especializada, construída a partir do conhecimento de correntezas, pedrais, áreas de passagem e comportamento das espécies. Técnicas e saberes eram transmitidos entre gerações de pescadores.
Com a submersão da cachoeira e a transformação do ambiente, locais e práticas tradicionais precisaram ser substituídos ou adaptados. É mais preciso dizer que a pesca ligada aos antigos pedrais do Teotônio foi profundamente desestruturada e transformada do que afirmar que toda a pesca no Madeira acabou.
O debate sobre os peixes do rio Madeira também passa pela ciência produzida em Rondônia. Pesquisadores ligados à Universidade Federal de Rondônia aparecem em estudos sobre desembarques e na documentação da pesca tradicional, aproximando o tema internacional da realidade local.
A The Nature Conservancy é a referência principal do relatório. O estudo sobre Teotônio está disponível na Canoa do Tempo/UFAM.
Os peixes do rio Madeira também mostram como dados biológicos e conhecimento tradicional precisam ser lidos em conjunto para entender mudanças de longo prazo.
Assim, o novo relatório amplia o contexto, mas o recorte de Rondônia permanece concreto: os peixes do rio Madeira ajudam a discutir conectividade, migração, desembarque pesqueiro, conhecimento tradicional e a adaptação de comunidades a um ambiente que mudou.






